O AUTOR
Mino Carta é um imigrante italiano que fez uma excepcional e brilhante carreira de jornalista no Brasil. Começou aos 17 anos, quando aceitou cobrir para um jornal italiano a Copa do Mundo de 1950. Em 1960, depois de passar 3 anos na Itália, atuando como repórter, voltou ao Brasil, onde criou e dirigiu a revista Quatro Rodas. Ajudou a criar e dirigiu o caderno de esportes do Estadão (1964/65), o Jornal da Tarde (1966/1968), a revista Veja (1968/1976), a Revista Isto é (1976/1981), o Jornal da República (1979/1980), a revista Senhor (1982/1988), revista Isto é (1988/1993) e desde1993 dirige sua própria revista, a Carta Capital. Mino também é pintor, com carreira iniciada ainda nos anos 1950.

CIRCUNSTÂNCIAS
Mino alcançou um status poucas vezes conseguido por profissionais de jornalismo no país: ele impôs, como profissional, aos donos e patrões, um alto nível de independência nos veículos que dirigiu, desde a revista Veja, cuja redação comandou com ampla liberdade e autonomia no período mais sombrio da ditadura militar. Mino conseguiu incomodar os generais-presidentes, trazendo enorme prestígio para a revista. Mas, a marca mais forte de Mino é que ele montou sua própria revista, a Carta Capital. Os proprietários dos veículos de comunicação que se dizem nacionais comportam-se como senhores absolutos de um clube fechado. Mino Carta entrou sem bater, ou melhor, começou a bater logo depois de entrar: nenhum dos seus ex-patrões é completamente poupado no livro. Mino colocou sua versão, eles não reagiram, não confirmaram, não desmentiram. Por enquanto.

A PUBLICAÇÃO
O Castelo de Âmbar, de Mino Carta, tem exatas 400 páginas e foi editado pela Record, que é carioca. Foi lançado no ano 2000, quando a revista Carta Capital já contava sete anos, não era mais apenas um projeto. O livro é dividido em duas partes e se distribui em sessenta e oito pequenos capítulos.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO
O Castelo de Âmbar é literatura de alta qualidade. O autor não se esforça para disfarçar que é quase cem por cento realidade, embora a capa anuncie Romance. Difícil é identificar o que é ficção. Dos anos 60 até perto do ano 2000, o leitor encontrará um retrato do Brasil, pintado com tintas fortes, só amenizado porque os nomes próprios de várias pessoas sofreram uma troca pouco sutil. A seleção dos eventos é feliz, a maioria dos personagens ainda está em atividade (ou estava por ocasião da publicação). Fundamentalmente, dois elementos compõem o quadro, a imprensa e a política, ambos tratados de forma dura e fria. Ninguém fala dos poderosos (e com os poderosos) como Mino.
O livro é de memórias, mas não segue o tom e o estilo das publicações anteriores do tipo feitas por outros jornalistas. Mino Carta já era uma grife. O livro mostra porquê.

O LIVRO
O título do livro refere-se a uma imagem da infância do jovem imigrante italiano, um imaginário castelo que frequenta a sua vida de forma imprevista, mas encantadora, uma espécie de paraíso.
As lembranças se seguem, inicialmente na Itália, depois no Brasil. Fatos e personalidades da política e da imprensa são objeto de capítulos curtos. Os textos são breves, profundos e incisivos, graças à força dessa potente mistura de jornalismo e literatura. E também devido ao fato de que as situações analisadas foram vividas diretamente pelo autor. Desde a renúncia de Jânio Quadros até a reeleição de FHC, quase todo momento relevante da história recente do Brasil e respectivos protagonistas é objeto de apreciação crítica. Não há a preocupação com detalhes, o autor não busca fazer história. Produz, todavia, uma crítica contundente ao país, à sua imprensa e a seus políticos mais expressivos. Lá estão Jânio, Jango, Brizola, ACM, Lula, Ulysses, Sarney, Collor, FHC e outros. Da imprensa estão todos os barões, e um tratamento especial é concedido a Cláudio Abramo.

INSIGHTS
“Pergunto até que ponto esta independência seria possível, se lá estaria como empregado.
“O tema central por enquanto é a fragilidade das crenças do pessoal, já encheram as noites de propósitos formidáveis, cuidavam mesmo é de subir na vida.
“Um bom amigo me sugeriu: ponha por escrito o que pretende dizer. Pus. Assim todos vocês terão a a oportunidade de verificar que pronuncio mediocridades tanto de improviso quanto por escrito.
“Subversivo? Não acho, leio o que ele escreve, enxergo um opositor que sabe honrar a profissão.
“A pasta da Justiça é de importância vital no país Brasil, onde se recomenda tecer o imbróglio jurídico sempre que a oligarquia quer justificar legalmente seu enésimo desmando.
“Outro editor judeu estabelecido no Brasil, Adolpho Bloch, reprochava os Civita com vitupério, por se terem convertido. Em lugar de lhes pronunciar o sobrenome, dizia “os cagões”.
“Se o lago de Tiberíades fosse igual ao Tietê, a caminhada de Cristo sobre a água não seria um milagre.
“Quartéis e conventos têm o mesmo cheiro, e apresentam outros parentescos, mas os chefes, às vezes, são bem diferentes.

PRINCIPAIS IDEIAS (TAKEAWAYS)
“Até os inconformados falam em redemocratização, escrevem revolução em vez de golpe, e terrorismo em lugar de luta armada. Não é por sujeição ou medo, mas pelo escasso valor que emprestam às palavras e à língua, como se a resistência não devesse passar também por ali.
“O general costuma ironizar seus companheiros de farda e ridicularizar os arquivos secretos que organizou na preparação do golpe. Pergunta: — Sabe como foram feitos? Se imagina investigações na calada da noite, escutas telefônicas, tocaias, ardis e quejandos, está enganado. Certas palavras ele as pronuncia enchendo a boca, quejandos, por exemplo, e prefere cousa a coisa. — E então, general, como nasceu o tal arquivo? Gargalha. — Da tesoura. Naquelas pastas só havia recortes de jornal e revista…
“Neto e filho de jornalistas, não atribui à profissão o valor pretendido por inúmeros colegas. Pelo contrário, sempre entendeu que ela se presta ao jogo do poder porque os próprios patrões da comunicação estão sentados à mesa e distribuem as cartas. Na quadra dura que o Brasil vivia, deu, porém, e subitamente, para achar gosto no trabalho, bem acima das miúdas satisfações do espírito colhidas até então…
“— Todo homem tem seu preço – repetem os Civita, pai e filho, e Mino curte a impressão de um coro ensaiado com desvelo. Vici levanta-se da cabeceira da mesa de reuniões, vira as costas para os conselheiros, inclina-se para a frente, na direção da parede, e faz menção de abaixar as calças.
— Se os militares me pedirem para arriar, eu executo – proclama.
Volta a sentar-se, e soletra, absurdamente solene:
— Quero deixar bem claro aos senhores!
“Os arquitetos da capital, de declarada fé esquerdista, realizaram uma obra-prima da ironia: para uso do poder conservador ergueram uma cidade de concepção fascista, sem que os mecenas se dessem conta da esparrela, tampouco inúmeros críticos de arte, mal informados a respeito do senso de humor dos criticados. Agora há holofotes sobre a residência oficial do presidente, de início planejada para ser hangar do aeroporto…o propósito, realizado de forma ampla e magnífica, de privilegiar o carro em relação ao homem. O lugar foi concebido para a afirmação da prepotência da oligarquia e a felicidade dos veículos automotores, e esta parte do projeto é demonstrada pela ausência total de esquinas, o que significa a realização do sonho de Gaudí, aquele criador de pesadelos de pedra…
“No momento, a excelência desta cultura é reforçada quer pelo desenvolvimento tecnológico, quer pela globalização, de sorte que o país é campo de experiências internacionais das mais interessantes e até revolucionárias, das quais participam, com vantagens equitativamente distribuídas entre a tigrada estrangeira e a nacional, os grandes nomes do capital errante e os fabricantes de coisa nenhuma.
”A ladroagem dos poderosos e, entre eles, das autoridades, constituídas ou instituídas, não é fenômeno local, isso é do conhecimento até do mundo mineral. No nosso caso, houve mudanças nos alcances e nos volumes, nos métodos e nos resultados. De certa maneira, pode-se anotar uma forma de avanço, de progresso, de aprimoramento, com a contribuição da instituição chamada impunidade, tanto maior quanto maior o poder do assaltante do erário.
“A presença de profissionais competentes, de grandes jornalistas respeitados pelas redações, atrapalha a sucessão no feudo e compromete os interesses de quem manda, na instância intermediária e na suprema. Reparem: a nossa imprensa serve ao poder porque o integra compactamente, mesmo quando, no dia-a-dia, toma posições contra o governo ou contra um ou outro poderoso. As conveniências de todos aqueles que têm direito a assento à mesa do poder entrelaçam-se indissoluvelmente.
”Nos dias de hoje, a máfia, como o poder neste país, tem uma estrutura oligárquica, embora uma e outro sejam bastante originais. No caso da nossa imprensa, além dos barões, temos os príncipes, os senhores do feudo, e eles não desistem da carteirinha de jornalista porque não se contentam em ser donos do negócio. Esta ambição, aparentemente menor, tem sua razão de ser. Entra em jogo um natural anseio de realização pessoal, admita-se, e nada impede que o patrão tenha forte vocação para jornalista. Mais vale, contudo, o fato de que ninguém é mais confiável para o sistema, o establishment (achem o nome mais adequado), do que o próprio dono do jornal.