Trago aqui, uma dúvida atroz de velho usuário da língua portuguesa, na sua versão brasileira. Não se trata do protesto de um fundamentalista gramatical, que não percorri estas trilhas caprichosas e combativas.
Meu avô educógeno, leitor dedicado de textos e de partituras, ensinou-me que o ouvido vem, em muitos empreendimentos humanos, à frente de outras formas transversais ou formais de leitura. No fundo, o que ele fazia flutuar, entre dejetos perdidos, era uma questão estética essencial.
A gramática amarra, prende e impõe disciplina, dizia o velho maçom da minha infância; já a construção da frase, emoldura o texto, dá-lhe contextura e elegância. Clareza e totalidade vêm como coroamento da narrativa ficcional, a propósito. Ensinou-me a escutar os pássaros e a “afinar” o ouvido para que, por aquelas antenas da inteligência, não vibrassem as cordas frouxas da dislexia do entendimento.
Pergunto-me, agora, sobre qual língua ou vernáculo sobreviverá, bem a propósito, à linguagem da mídia, da televisão e do rádio em particular. A escrita sobreviverá, a seu modo, os seus códigos são mais difíceis de serem reduzidos a fórmulas consensuais de indigência intelectual.
O mais perigoso do terrorismo que baixou sobre a Faixa de Gaza não são os mísseis do Hamas, as estratégias militares postas à prova ou as fundas baladeiras de David, operadas pela meninada soprada pelas razões do Profeta.
São as narrativas da CNN e destas mocinhas falantes que enrolam-se diante das evidências incômodas, ali e em outros canais, com a irresponsabilidade corajosa de quem não sabe sobre o que está a falar.
À medida que as imagens se repetem indefinidamente na tela, repórteres e comentaristas reproduzem, sem controle ou limites, o fraseado desprovido de lógica e do bom senso, fazendo as mesmas perguntas e oferecendo as mesmas respostas inidôneas.
Esta técnica de sedução pelo óbvio repete-se na matérias políticas locais, nos crimes e na prática de feminicídio, espécie de ativismo contemporâneo, na justa medida que pontua um dos traços culturais mais obscenos da nossa cultura originária.
O problema não está na excessiva liberalidade com a formulação e circulação da opinião, com o compartilhamento da liberdade de expressão. O risco de intemperança aparece na interpretação ligeira de contingências e circunstâncias mal acuadas.
Urge aparelhar o brasileiro com os instrumentos da linguagem e do idioma que, bem ou mal, é o que falamos.
O STF poderia chamar para o território ilimitado das suas atribuições constitucionais o uso e a produção propícios do texto escrito e do oral… E que o gerúndio, os advérbios e adjetivos sejam empregados com moderação, sobretudo pelos políticos — e por que não? — pelos juristas e pelos valorosos homens e mulheres d’armas… Sem esquecer os consórcios da mídia e de governantes… Se vamos dar uma limpeza de sangue na opinião e nas ideias, que comecemos pelas firmas da nossa expressão falada.
* Paulo Elpídio de Menezes Neto
Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.