(Publicado no site The Chris Hedges Report, traduzido e adaptado por Rubens Turkienicz para o Brasil 247)
Shireen Abu Akleh – a reporter da Al Jazeera com mais de duas décadas de experiência cobrindo conflitos armados – conhecia o protocolo. Ela e outros repórteres permaneceram ao aberto [visíveis e identificados como imprensa] na última quarta-feira, visíveis aos franco-atiradores israelenses que estavam num prédio a menos de 200 metros (650 pés). O colete à prova de balas dela e o seu capacete estavam marcados com a palavra “PRESS” [imprensa].
Foram disparados três tiros na direção dela. A segunda bala atingiu o produtor da Al Jazeere Ali al-Samoudi nas costas. O terceiro tiro, lembra al-Samoud (https://www.npr.org/2022/05/11/1098157067/al-jazeera-shireen-abu-akleh-killed-israel), atingiu Abu Akleh na face, abaixo da borda do seu capacete.
Passaram-se alguns segundos, quando o franco-atirador israelense (https://apnews.com/article/middle-east-jerusalem-israel-journalists-795d503848799713cdf86043131911d7) divisou Abu Akleh no seu telescópio – ela sendo uma das faces mais reconhecíveis no Oriente Médio. A bala de 5.56 mm do rifle M-16, desenhada girar sobre seu eixo sob impacto, teria obliterado a maior parte da cabeça de Abu Akleh. A precisão do M-16, especialmente o M16A4s equipado com a Mira Ótica Avançada de Combate (ACOG – Advanced Combat Optical Gunsight), que é uma mira telescópica prismática, é muito alta. No combate em Fallujah, tantos dos insurgentes foram encontrados com ferimentos na cabeça que, à primeira vista, os observadores pensaram que estes teriam sido executados. A bala que matou Abu Akleh foi habilmente dirigida à abertura muito estreita entre o seu capacete e a gola do seu colete à prova de balas.
Eu estive em combates, incluindo os confrontos entre forças israelenses e palestinas. Os franco-atiradores são temidos nos campos de batalha porque cada morte é calculada por eles. A execução de Abu Akleh não foi um acidente. Ela foi destacada para eliminação. Eu não posso responder se este assassinato foi ordenado por oficiais de comando, ou se foi ao capricho de um franco-atirador israelense. Os israelenses atiram em tantos palestinos com impunidade, que eu imagino que o franco-atirador, ele ou ela, sabia que podia matar Abu Akleh e jamais teria que enfrentar as consequências disso.
Segundo uma declaração da Al Jazzera (https://www.aljazeera.com/news/2022/5/11/al-jazeera-condemns-israels-killing-of-shireen-abu-akleh), o fuzilamento foi “um flagrante assassinato, violando as leis e normas internacionais.” A rede televisiva adiciona que Abu Akleh foi “assassinada à sangue frio.”
Abu Akleh – que tinha 51 anos e era palestina-estadunidense – era uma presença familiar e confiável nas telas de televisão em toda a região, reverenciada pela sua coragem e integridade, e amada pelas suas reportagens cuidadosas e sensitivas sobre os meandros da vida cotidiana sob a ocupação [israelense]. As suas reportagens nos territórios ocupados geralmente perfuravam as narrativas israelenses e expunham os abusos e crimes dos israelenses, fazendo dela a bête noire [fera negra, em francês] do governo israelense. Ela era uma heroína para jovens mulheres palestinas – como Dalia Hatuga, uma jornalista palestina-estadunidense e amiga de Abu Akleh contou ao The New York…
(Texto na íntegra no Brasil 247)