De algumas lembranças perseverantes.
Não escapei ao fascínio de Gutenberg desde tenra idade, vaidade noves fora. Lia os jornais, aos domingos, o Unitário, o Estado, a Gazeta de Notícias e O Povo.
Neste dia, as edições eram mais volumosas, recheadas de anúncios e algumas matérias literárias.
Tornei-me editor solitário ainda garoto, sob os cuidados das enfermidades infantis então em voga. Desenhava em folhas de papel almaço um jornal com notícias familiares e rabiscos de caricaturas. A cada número exibia nova razão social, nova marca.
Encorajado pelo meu pai, ganhei uma caixa de velhos tipos móveis em desuso e um “composer” onde aprendi os primeiros passos de tipógrafo. O avô, nas lides de procurador fiscal do Estado, revivia com aquele trabalho engenhoso do neto, seus tempos de redator de O Ceará, de Júlio de Mattos Ibiapina, e as batalhas travadas contra O Nordeste, jornal editado pela arquidiocese de Fortaleza. Briga de cachorro grande, os hereges atrevidos do anti-clericalismo contra os anunciadores da vida eterna.
Aluno de ginásio, andei às voltas com um jornal impresso em tipografia, redator único, diretor e publicitário. Do editorial às notícias correntes, o texto saia abundante, com cópia de matérias publicados em outros jornais… Poucos clichês e repetidos faziam a festa do jornaleco.
Não eram poucos os anunciantes de O Independente. Com um peso de generosidade variável. Lembro ainda de alguns deles: no ramo das ferragens, José Afonso Sancho que seguiria um traço ascendente no comércio e na política. A Casa Frate, das camas Patente. Paulo Moraes, da loja A Torre Eiffel e o irmão, Gothardo Morais, da Livraria Morais. Todos bons anunciantes e indulgentes criaturas. Concedido o anúncio, o pagamento realizava-se contra a apresentação da matéria publicada. Tornei-me amigo e fiel cortesão das garotas que de filhas bonitas, os Morais eram exemplares.
Chegada a adolescência, outros caminhos foram tomados pelo jornalista em projeto. Sem que o gosto pelo papel impresso escapasse das suas manias e de reiteradas práticas, de tudo fazendo um pouco, às voltas com editoras, gráficas e velhas e sonolentas tipografias.
Os jornais perderam o que mais gosto lhe emprestavam o papel impresso e o cheiro dominador da tinta, do chumbo derretendo e do improviso das redações.
Outrora, predominavam a criatividade e a criação, como desafio do talento nas redações. O jornal impresso, entretanto, sumiu, e o que dele restou foi a diagramação escorreita estampada no monitor iluminado. O texto perdeu a vivacidade que despertava o “plaîsir du lire”, fragilizou a escrita e o estilo e tirou-lhe a credibilidade como instrumento da informação e veiculação de opiniões bem construídas.
Nada, entretanto, que não se possa recuperar com persistência e honestidade…
Paulo Elpídio de Menezes Neto é cientista político e escritor, foi reitor da UFC e Secretário de Ensino Superior do MEC.