DE TIPÓGRAFOS, JORNAIS E MENTIRAS BEM OU MAL PLANTADAS, por Paulo Elpídio de Menezes

De algumas lembranças perseverantes.

Não escapei ao fascínio de Gutenberg desde tenra idade, vaidade noves fora. Lia os jornais, aos domingos, o Unitário, o Estado, a Gazeta de Notícias e O Povo.

Neste dia, as edições eram mais volumosas, recheadas de anúncios e algumas matérias literárias.

Tornei-me editor solitário ainda garoto, sob os cuidados das enfermidades infantis então em voga. Desenhava em folhas de papel almaço um jornal com notícias familiares e rabiscos de caricaturas. A cada número exibia nova razão social, nova marca.

Encorajado pelo meu pai, ganhei uma caixa de velhos tipos móveis em desuso e um “composer” onde aprendi os primeiros passos de tipógrafo. O avô, nas lides de procurador fiscal do Estado, revivia com aquele trabalho engenhoso do neto, seus tempos de redator de O Ceará, de Júlio de Mattos Ibiapina, e as batalhas travadas contra O Nordeste, jornal editado pela arquidiocese de Fortaleza. Briga de cachorro grande, os hereges atrevidos do anti-clericalismo contra os anunciadores da vida eterna.

Aluno de ginásio, andei às voltas com um jornal impresso em tipografia, redator único, diretor e publicitário. Do editorial às notícias correntes, o texto saia abundante, com cópia de matérias publicados em outros jornais… Poucos clichês e repetidos faziam a festa do jornaleco.

Não eram poucos os anunciantes de O Independente. Com um peso de generosidade variável. Lembro ainda de alguns deles: no ramo das ferragens, José Afonso Sancho que seguiria um traço ascendente no comércio e na política. A Casa Frate, das camas Patente. Paulo Moraes, da loja A Torre Eiffel e o irmão, Gothardo Morais, da Livraria Morais. Todos bons anunciantes e indulgentes criaturas. Concedido o anúncio, o pagamento realizava-se contra a apresentação da matéria publicada. Tornei-me amigo e fiel cortesão das garotas que de filhas bonitas, os Morais eram exemplares.

Chegada a adolescência, outros caminhos foram tomados pelo jornalista em projeto. Sem que o gosto pelo papel impresso escapasse das suas manias e de reiteradas práticas, de tudo fazendo um pouco, às voltas com editoras, gráficas e velhas e sonolentas tipografias.

Os jornais perderam o que mais gosto lhe emprestavam o papel impresso e o cheiro dominador da tinta, do chumbo derretendo e do improviso das redações.

Outrora, predominavam a criatividade e a criação, como desafio do talento nas redações. O jornal impresso, entretanto, sumiu, e o que dele restou foi a diagramação escorreita estampada no monitor iluminado. O texto perdeu a vivacidade que despertava o “plaîsir du lire”, fragilizou a escrita e o estilo e tirou-lhe a credibilidade como instrumento da informação e veiculação de opiniões bem construídas.

Nada, entretanto, que não se possa recuperar com persistência e honestidade…

 

Paulo Elpídio de Menezes Neto é cientista político e escritor, foi reitor da UFC e Secretário de Ensino Superior do MEC.

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