“Enquanto houver champanhe…”- Biografia de Zózimo Barroso do Amaral, por Joaquim Ferreira dos Santos

A PUBLICAÇÃO

O livro “Enquanto houver champanhe, há esperança – uma biografia de Zózimo Barrozo do Amaral”, de autoria de Joaquim Ferreira dos Santos, foi lançado pela editora Intrínseca em fins de novembro de 2016, com 637 páginas, incluindo 37 com índice onomástico e 5 de bibliografia e mais 32 com fotografias. O livro não tem prefácio nem apresentação.

O AUTOR

Joaquim Ferreira dos Santos é um experiente jornalista carioca. Trabalhou com o biografado no Jornal do Brasil (de 1983 a 1990 no Caderno B) e por dez anos redigiu uma coluna social no O Globo. Começou sua carreira em 1969, como repórter no ‘Diário de Notícias’ e escalou posições na Veja, no JB, no O Globo e O Dia. Escreveu as biografias de Antonio Maria e Leila Diniz, além do livro ‘Feliz 1968 — o ano que não devia terminar’ e publicou outros de crônicas

CIRCUNSTÂNCIAS

Em 2013, um dirigente da editora Intrínseca contatou e contratou o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos para biografar Zózimo, que morreu em 1997, vítima de câncer no pulmão. O trabalho de pesquisa e redação durou 3 anos. JFS já tinha feito as biografias de dois importantes personagens da cena carioca, Leila Diniz e Antonio Maria. Fernando e Isabel (filho e filha de Zózimo) e Márcia e Dorita (primeira e segunda mulher) deram ao jornalista pleno acesso aos arquivos e álbuns do colunista.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Numa visão ampla, “Enquanto houver champanhe” é o retrato de trinta anos de um Brasil que desfila toda a sua dor e toda a sua delícia na Cidade Maravilhosa. O foco do livro é o talento de Zózimo para fazer um colunismo totalmente novo, criando um estilo único e conferindo ao jornalismo de notas uma qualidade, um charme e uma força antes impensáveis. Tudo junto e bem organizado, JFS descreve com leveza e bom humor a trajetória pessoal e profissional de ZBA, tendo como cena de fundo o comportamento dos ricos, dos famosos, dos poderosos, dos ascendentes e dos decadentes nos mais diversos mundos (político, de negócios, do jornalismo, da noite…).

O LIVRO

Zózimo é um estilo, seja como pessoa, seja como profissional. Fisicamente atraente, de fina educação, elegante no vestir e no tratar foi uma personalidade marcante. Fez sucesso como jornalista, experimentou o máximo do prestígio, teve o que se pode considerar uma vida de sonhos e de festas que nunca acabavam. Morreu aos 56 anos, abatido por um câncer que o alcança logo depois dele curar-se da doença do alcoolismo.

O livro conta toda a sua vida em 48 pequenos capítulos, todos alegres e divertidos, à exceção do último, que, em compensação, é o mais curto.

É quase impossível não sentir na leitura uma mistura de alegria e euforia. O bom humor do biografado e o texto agradável do biógrafo somam-se ao clima de festa permanente, com gente jovem, bonita e rica.

Se o capítulo fala de jornalismo, cai na experiência belíssima do ‘Jornal do Brasil’. Se fala da cidade, a beleza do Rio de Janeiro oferece farto pano para mangas. Se fala de mulheres, a imaginação não para de dar voltas no texto.

Parece que o autor, o livro e o biografado conseguiram se colocar em fina sintonia. É isso.

BONS MOMENTOS

— (Roberto) Marinho tentou seduzi-lo (não ir para o JB): “Meu filho, você vai fazer a maior besteira da sua vida. Todo mundo sabe quem é Swan, mas ninguém sabe quem é Zózimo”. O velho homem de imprensa ouviu então uma resposta desafiadora, bem representativa do mundo jovem da década de 1960: “Dr. Roberto, o senhor está na verdade dando um argumento a meu favor. Carlos Swan é o senhor, o pseudônimo é seu, a coluna é sua. Está na hora de as pessoas saberem que é o Zózimo Barrozo do Amaral”.

— Todo jornalista tinha outro trabalho, porque os salários nas redações não pagavam as contas. Carlos Castello Branco, o grande Castelino do noticiário político, estava registrado entre os funcionários do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem como procurador, nomeado por JK…A dispensa do pagamento do imposto de renda pelos jornalistas (um cala-boca criado pelo governo de Getúlio Vargas) já tinha expirado, mas, para os que gostavam de viajar, a profissão continuava sendo um negócio dos céus, porque se ganhava desconto de 50% nos bilhetes. Ser colunista era melhor ainda: tudo free.

—-Manipula o poder de ter uma coluna como se exibisse uma metralhadora. Imoral é pouco para defini-lo. O canalha sabe que uma linha de jornal é o novo sopro bíblico: pode dar vida ou tirá-la. Não tem uma coluna, mas um balcão de negócios a serviço da ambição humana de subir na escala social. É um gângster de black tie remexendo o lixo da informação, à cata de traições e afins. Chantageia políticos, artistas e policiais com a arma de sua profissão: alguma migalha de segredo que obteve no passado.

— A fofoca existia desde os tempos bíblicos. Walter Winchell foi quem primeiro a faturou na imprensa. Logo em seguida, e por causa do sucesso dele, todos os jornais americanos teriam a sua coluna de babados, tornando aquela seção parte fundamental no espelho de um diário. Winchell especulava sobre a vida sexual alternativa de galãs de Hollywood e sobre infidelidades…Com Winchell, a fofoca vencera. O “quem come quem”, pergunta que move a humanidade, chegava às bancas.

— Foi o caso do general Cota e Silva. Quando a condessa informou que uma matéria narraria a visita, ele quis saber: “Tem elogio?” Pereira Carneiro sorriu, gentil. Disse que, bem, seria publicada uma matéria narrando os detalhes da visita. Adjetivos não iam bem com o texto jornalístico moderno. Costa e Silva, franco como o generalíssimo espanhol que o antecedeu na divulgação das ditaduras, agradeceu. Naqueles termos a publicação não lhe interessava. Abria mão da pseudo-honraria.Quem gostava de objetividade era jornalista, seu negócio era outro. “Eu gosto mesmo é de elogio”.

—- A (diatribe) mais comum resumia-se em alguém convidá-lo para um café. Nelson (Rodrigues) topava e deixava a lauda, já com a coluna pelo meio, no rolo da máquina – era a senha para que um comparsa daquele que o convidara para o café colocasse uma palavra qualquer ao lado da última escrita. Quando voltava do café, Nelson via a palavra, às vezes uma linha inteira, podre, e, considerando-a sua, ou para não dar bandeira de que estava sendo vítima de uma brincadeira, continuava o texto dali mesmo, agregando o caco dos colegas ao seu genial texto delirante.

— A coluna não tem uma opinião política forte, mas não pode se eximir porque as pessoas procuram uma opinião – além de eu possuí-la. O empresariado brasileiro é, de modo geral, escrotérrimo. Ele é incapaz de ceder um mínimo que seja nas questões que envolvam seus ganho. É um conjunto de pessoas que se habituou a receber tudo dando pouco em troca. A relação deles tanto com os empregados quanto com o país é de mão única: só querem receber, e nada mais.

— A elite, sócia do golpe dos militares, tentou levar a vida como se nada houvesse acontecido, achou que podia manter florescentes os salões, atraindo para a sua festiva órbita o deslumbramento da caserna, mas, ao primeiro arreganhar de dentes do presidente-general Deus-pátria-família, entendeu que o buraco era mais embaixo.

CURTAS

— Não se deve convidar à mesma mesa Stevie Wonder e Ray Charles. Um não pode ver o outro.

— Dedetizaram a Câmara Federal. Foi um deus nos acuda.

— E a Chechênia, hem? Chechênia, capital Clitória.

— E a situação da Chechênia, hem? Está cabeluda.

— A miopia deliberada do Zózimo é a melhor defesa que a cidade tem. Dorme-se em elegante paz no Rio.

— “Olho com atenção as fotografias das colunas sociais e não vejo ninguém suando honestamente”.

— Suspeita-se que o Chupa-Cabra seja um velhinho. Se fosse moço, comia.

—- Conclusão extraída do jogo Camarões 2 x Suécia 2. Camarões tem aquilo na cabeça e a Suécia nos pés.

— Passei trinta anos construindo uma reputação. Chegou a hora de colocá-la à venda.

— Um bem que a gente perdeu ao longo dos últimos anos foi o de viver sem se sentir ameaçado.

— Todos escrevem coluna, ninguém como Zózimo Barrozo do Amaral.

Compartilhar esta publicação:

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp