Em editorial com chamada de primeira página, o jornal Folha de S. Paulo propõe que o presidente da República Jair Bolsonaro “seja contido pelas instituições da República” e cita ao longo do texto várias janelas da lei que foram quebradas nestes poucos meses e que podem caracterizar crime de responsabilidade – o que pode levar ao impedimento.
A Folha reage a ameaças diretas do presidente contra seus negócios, seu jornalismo, suas opiniões.
Não há dúvidas do posicionamento do jornal paulusta: “…Será preciso então que as regras do Estado democrático de Direito lhe sejam impingidas de fora para dentro, como os limites que se dão a uma criança. Porque ele não se contém, terá de ser contido, pelas instituições da República, pelo sistema de freios e contrapesos…”.
É fato que a Rede Globo de Televisão também sofreu ameaças diretas, enquanto suas concorrentes Record e SBT têm sido prestigiadas de diversas maneiras.
Tradicionalmente, a grande imprensa posiciona-se unida, em consenso, quando se refere ao Palácio do Planalto. Desde 2006, por exemplo, Lula e Dilma foram bombardeados sem trégua, bombardeio que não parou ainda, na medida em que os dois têm sido tratados como causadores únicos e, por isso, bodes expiatórios de todas as crises, de todos os grandes problemas.
A questão que se coloca é: haverá um novo consenso da grande imprensa para criar o clima necessário para as “instituições” agirem no sentido de que o presidente “seja contido”? Não parece que isto esteja acontecendo.
Por enquanto o que mais se aproxima do consenso (mesmo que não seja um consenso absoluto) é que o ministro da Economia Paulo Guedes e o ministro da Justiça Sérgio Moro estão blindados, protegidos. Na economia há um apoio indisfarçável e incondicional às “reformas e privatizações”, a agenda que não foi debatida no processo eleitoral, mas que é tratada como “virtuosa. Perfeita, liberal, modernizante, necessária, urgente…”. No caso da Justiça, o compromisso parece ser com a operação Lava-Jato, que colocou na cadeia aquele que podia ter voltado ao poder (e que pode voltar ao poder, por remota que seja a hipótese) e seria capaz de desfazer os negócios da tal “agenda econômica” (Ciro Gomes também disse que desfaria essas transações e legislação contra o trabalhador). A Lava-Jato tem enorme força policial que, eventualmente, pode ser usada como arma política contra adversários.
O peso das redes sociais, onde Bolsonaro tem seu exército (sejam pessoas ou robôs) contrapõe-se à força da Folha e da Globo, assim como os interesses na agenda econômica impedem um jornalismo mais independente da ação do governo.
Não esperem lances dramáticos imediatos, mas grandes mudanças podem estar acontecendo abaixo da superfície.