Faz aproximadamente 30 anos que no salão de cristais da economia brasileira passeia um imenso e desengonçado elefante que, quando precisa, esconde-se embaixo de uma pequena toalha de mesa.
Isso tudo começa com os arranjos cuidadosamente combinados durante e depois do Plano Real. Desde então, o Brasil tem uma singularidade. É a forma de calcular o déficit das contas públicas. Por aqui, estabeleceu-se que só o déficit primário seria acompanhado, noticiado e cobrado.
Este déficit primário é a forma sutil de deixar na sombra o valor dos juros que o Tesouro brasileiro paga na dívida interna. Nos outros países, o costume é falar em déficit total ou em déficit nominal.
Neste, no déficit nominal, caso brasileiro, os juros estão incluídos no cálculo. A vontade de deixar na sombra é explicada pelo fato de que se exige de toda a população um sacrifício e um esforço gigantesco para poupar o dinheiro para pagar o juro da dívida, que é cada vez mais alto. E tudo isso configura uma situação simples: o sacrifício é geral para bem remunerar o capital improdutivo de uns poucos.
Foram 30 anos de juros muito altos. Tudo oscila no Brasil. Os juros altos, não. Ele sempre são altos. Houve um único momento de exceção estes 30 anos, e durou pouco. No resto dos 30 anos o juros sempre foi inexplicavelmente altos. Fora da breve exceção, os juros sempre foram acima da inflação, mesmo quando o mundo inteiro praticava juros abaixo da inflação.
O absurdo dos juros da dívida pública brasileira é tão gritante que nem essa manobra contábil criativa consegue mais disfarçar. É que nos próximos 12 meses a quantia de juros a serem pagos vai superar a marca de 1 trilhão de reais. E agora vai ficar mais difícil para o mercado financeiro, para a imprensa, para jornalistas e economistas ficarem cobrando cortes de gastos e não se referirem aos juros da dívida pública.
É exatamente isso: o rei está nu. O rei está completamente nu.
Não é mais possível esconder a farsa do “corte de gastos “, a historinha de que a economia brasileira deve ser tratado como a conta de uma família, a quem praticamente só cabe a tarefa de cortar gastos.
O que aconteceu para que esta farsa caminhe para o final já nos próximos dias?
Além do fato de que os juros alcançarão a marca do trilhão de reais, além do fato de que os juros estão ruidosamente elevados demais, além do fato de que o déficit primário ficou em ridículos 0,1 por cento no ano de 2024, além do fato de de que a imprensa age para criar uma onda de pessimismo, além do fato de que os números da economia brasileira encontram-se num bom momento, além do fato de que o Banco Central do Brasil encontra-se sob uma nova gestão, o fato novo é que os dois jornais da Rede Globo, o jornal Valor e o jornal o Globo,nesta quarta-feira, 15, noticiaram na primeira página o déficit nominal.
Ou seja: o rei está reconhecidamente nu, completamente pelado, como se agora este fato constasse no Diário Oficial.
Pode-se dizer que sempre que jornalistas e economistas falavam de déficit, reclamavam um corte de gastos, criticavam a gastança, sempre estiveram falando exclusivamente do déficit primário. Explicando: o déficit primário só podia ser resolvido cortando-se gastos que afetam a maioria pobre da população brasileira brasileira. O déficit nominal pode ser resolvido cortando apenas e tão somente o juro do rendimento dos títulos das pessoas mais ricas do país país .
Este é o fato monumental, talvez o mais importante fato dos últimos 30 anos na economia brasileira. Só 3 outros tiveram a dimensão que este tem: O Plano Real, que colocou a inflação em patamar civilizado, o acúmulo de reservas cambiais que trouxe a soberania ao país e a descoberta do pré-sal, que representa trilhões de dólares.
O Brasil precisa ser informado. Hora de fazer política. Hora de fazer jornalismo