Você é capaz de perceber na cobertura da imprensa uma simpatia por alguns e uma antipatia por outros? Talvez, sim, e não precisa ser jornalista.
Vamos ao mais alto nível dos interesses.
Afinidades ideológicas provocam esse tipo de jornalismo enviesado. Os empresários da imprensa têm antigas e profundas afinidades com os empresários do sistema bancário. Pensam parecido e os bancos são os maiores clientes dos veículos de comunicação, todos eles (jornal, rádio, revista, televisão).
Além da afinidade ideológica, há um sentimento comum: ambos acostumaram-se a influenciar os destinos do país.
Os banqueiros gabam-se de serem racionais, tomadores prudentes de decisões rigorosamente técnicas. E exigem isso dos presidentes da República.
A imprensa gaba-se de ser isenta e equilibrada. Fala em ética e profissionalismo. Declara-se sem preferências políticos.
A questão é: em se tratando de presidentes da República, são éticas e técnicas as posições da imprensa e do ‘mercado’?
Não, não são. Vejamos a história recente.
Fernando Henrique Cardoso é um homem culto, inteligente e um político sério. Além disso, sempre falou, escreveu e agiu como um democrata. Seus defeitos são outros, visíveis e conhecidos: péssimo gestor, vaidoso, encantado com o poder, adquiriu para si a reeleição; aumentou a carga tributária em cerca de oito por cento do PIB; dobrou a dívida interna liquida como proporção do PiB. Encantou o “mercado” ‘vendendo’ dezenas de médias e grandes estatais. FHC deixou o país “pendurado” em dívidas em dólar com FMI, Clube de Paris e Comitê de Bancos, pires à mão…quebrou o país três vezes (como atesta Ciro Gomes), creditou a si mesmo o Plano Real de Itamar Franco e terceirizou seu governo para gente “do mercado”. A imprensa o tratou e o trata como grande estadista e ótimo gestor, ignorando defeitos graves, números desastrosos e fatos embaraçosos.
Michel Temer agiu como um oportunista esperto. Vice de Dilma, articulou sua derrubada. Atendeu aos empregadores com uma reforma trabalhista contra trabalhadores e encaminhou a reforma previdenciária contra o aposentado do regime geral. Uma nulidade como gestor, zero à esquerda como líder politico. Uma espécie de despachante de interesses específicos (fez os negócios da tal ponte para o futuro) e privatista. A imprensa o poupa (e seu breve des-governo) de qualquer análise mais rigorosa.
Jair Bolsonaro escolheu não governar, Incapaz de criar um plano para o país, fazer um projeto ou desenvolver ideias complexas, compôs um ministério de medíocres e só Deus sabe o que fez de fato nos quatro anos de mandato. De concreto, só a discretíssima “Agenda do Guedes” (muito mais pragmática do que a Ponte para o Futuro, de Michel Temer), segredo para sempre bem guardado. Privatizou, exemplarmente, a Eletrobrás.
Lula apresentou números e realizações concretas. Desempenho econômico positivo. Pauta social reconhecida. Nada de “agenda do Guedes”, nenhuma “ponte para o futuro”. O mercado se irritou (petista é “ruim de transa”), a imprensa não gostou. Desgastaram e estigmatizaram Lula. Tentam destruir. Ainda não conseguiram.
Dilma Roussef fez um primeiro mandato mediano. Não brilhou, não comprometeu. Confrontou o sistema bancário privado. O “mercado” perdeu a paciência, a imprensa criou um clima de fim de mundo no primeiro ano do segundo mandato, 2015. O Congresso fechou-se pro governo dela e pautou o impeachment. Ela foi caindo em 2015, já entrou 2016 no chão. Temer assume seu lugar em abril de 2016
Por este simples apanhado de informações, entende-se a razão do antipetismo no “mercado”. O “mercado” ama privatizações e só aceita “corte de gastos” como visão de futuro e estratégia para o Brasil. O “mercado” escolhe, a imprensa chancela. O mercado aponta o ‘adversário’, a imprensa ataca.
O atual governador de São Paulo já se comprometeu com o corte de gastos e com a privatização. Deu prova do que é capaz na privatização selvagem da Sabesp (companhia de água e esgoto paulista). O “mercado” adorou. A imprensa aplaudiu. Tarcísio de Freitas será apoiado em 2026. O “mercado” e Tarcísio sentem orgasmos nas privatizações. Eis a apetitosa lista de negócios: Banco do Brasil, Caixa, Petrobrás, Correios…
O petismo atrapalha essa pauta de negócios. O antipetismo, então, continuará sendo alimentado, o atual presidente será condenado diariamente pelo que disser e pelo que fizer, pelo que não disser, pelo que não fizer, independente do desempenho real. Função da velha e tradicional imprensa, que agiu assim nos últimos 35 anos, quando a onda passou a ser o neoliberalismo privatista.
Esqueçam a técnica e a racionalidade. As afinidades é que contam. Os interesses pesam.