Imprensa patinou cinco dias e ainda não entendeu o escândalo das Lojas Americanas

Nos anos 1990, adolescentes brincavam com ideias e palavras. Um deles perguntava:

— Como faço para passar um elefante por debaixo da porta?

— Fácil: bota o elefante num envelope e passa o envelope.

Os acionistas da Lojas Americanas estão colocando essa ideia em prática. Estão tentando esconder debaixo do tapete um elefante gigantesco. E a imprensa está tonta, sem saber o que fazer ou dizer. E o elefante continua passeando na sala de cristais. Tudo isso já caminhando para cinco dias completos.

E o problema aumenta porque uma das empresas do grupo é a Ambev, um grande anunciante, cliente especial dos veículos de comunicação.

E o problema continua aumentando porque os donos da Lojas Americanas (Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira, da holding G3) são (ou eram) adorados pela alta competência e sucesso total no mundo dos negócios, dentro e fora do Brasil. Escreveram muitas páginas de jornais e revistas, e até livros, sobre esses gestores mágicos.

Sem quadros competentes e sem informação qualificada, a imprensa vem há dias sem poder fugir da versão oficial do escândalo, ajudando a esconder um elefante cada vez mais gordo e barulhento.

Como uma empresa pode dizer que 20 bilhões de reais desaparecem por “inconsistências contábeis”? Fala sério!

Que jornalistas experientes engolem uma versão tão frágil?

Um buraco deste tamanho não se faz por acidente, não se produz em um período curto de semanas ou meses, não se mantém fora de alcance de todos os níveis (operacional, tático, estratégico). São vinte bilhões de reais numa empresa que fatura por ano 55 bilhões de reais, fechou 2021 com um caixa de 1,8 bilhão de reais e declarou dúvida de 6,7 bilhões. A imprensa noticiou que são perto de 40 mil colaboradores.

Agora a versão mais recente admite uma dívida (dívida + o buraco) de até 40 bilhões de reais.

Os donos compraram a Lojas Americanas há quarenta anos. Sendo uma empresa de capital aberto, é obrigatório prestar informações detalhadas a cada trimestre e tudo tem que ser submetido a auditoria externa, no caso também registrada na bolsa americana, o rigor da transparência é altíssimo.

O Brasil tem mais de 300 empresas de capital aberto. E todas elas podem ser afetadas pelo descrédito que um evento assim causa no sistema. Ações de dois bancos credores caíram na bolsa nesta segunda-feira.

Nem informação básica a empresa tem fornecido. Mas já obteve na Justiça uma ordem de Recuperação Judicial, ou seja, nenhum credor pode incomodar.

Leia trecho de abertura de uma representação do Banco BTG:

“…Três dos homens mais

ricos do Brasil (com patrimônio avaliado em R$ 180 bilhões), ungidos como uma espécie de semideuses do capitalismo mundial “do bem”, são pegos com a mão no caixa daquela que, desde 1982, é uma das principais companhias do trio.

2. Dois dias depois, têm a pachorra de vir em Juízo pedir uma tutela cautelar, preparatória de uma recuperação judicial, para impedir os credores de legitimamente protegerem o seu patrimônio à luz da maior fraude corporativa de que se tem notícia na história do país.

3. É o fraudador pedindo às barras da Justiça proteção “contra” a sua própria fraude. É o fraudador cumprindo  sua própria profecia, dando verdadeiramente “uma de maluco para esses caras saberem que é pra  valer”.

A guerra de dinheiro e de informação chegou aos tribunais antes de a imprensa se mostrar capaz de entender o que tem tudo de um imenso escândalo.

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