Intimorata, do jornalista Luís Sérgio Santos, conta a história de um jornal

O AUTOR

Luís-Sérgio Santos, cearense, é jornalista, historiador e professor da área de Comunicação da Universidade Federal do Ceará. Já no início da carreira ganhou o Prêmio Esso, em 1980. Foi correspondente da Folha de S. Paulo, secretário de redação e editor geral dos dois maiores jornais do Ceará, Diário do Nordeste e O Povo, respectivamente. Expert em design gráfico, dá consultoria e implantou reestruturação de veículos impressos. Lançou três revistas, Fale, InsideBrasil e Poder Local, e é diretor geral da Omni Editora. É autor dos livros “Rui Facó – uma biografia” e “Parsifal – Um Intelectual na Política”.

A PUBLICAÇÃO

O livro ‘Intimorata – a saga do jornal O Estado de José Martins Rodrigues a Venelouis Xavier Pereira’, de autoria de Luís-Sérgio Santos, foi lançado em 2017, pela editora OMNI, com 703 páginas, sendo 50 páginas com referências bibliográficas, notas e índice remissivo, além de 16 com fotografias. Na contracapa, texto de apresentação de Roberto Martins Rodrigues.

CIRCUNSTÂNCIAS

O projeto de pesquisa do jornalista Luís-Sérgio Santos recebeu apoio do próprio jornal O Estado, que se preparava para comemorar em 2016 os 80 anos de fundação do jornal, sendo 30 destes nas mãos de Venelouis Xavier Pereira (pai dos atuais dirigentes), que não tinha nenhum vínculo com os proprietários do veículo que o antecederam entre 1936 e 1966. Uma história a ser contada, já que mesmo entre jornais não são muitos os que alcançam tal longevidade.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO

Junto com “Memória de um Jornal”, de José Raymundo de Albuquerque Costa, que conta de um jeito singular a história do O Povo, o livro ‘Intimorata’, do jornalista Luís-Sérgio Santos, é a pesquisa mais completa e atraente sobre uma empresa editora de jornal do Ceará. O leitor poderá confrontar nas suas páginas a imagem e a realidade de um veículo de comunicação que, de um jeito e de outro, marcou, para além do jornalismo, a política, a administração pública, a cultura e a economia regional.

O LIVRO

A escolha do autor em dividir a história do jornal O Estado em duas grandes partes confere ao livro uma dimensão importante. De fato, foi Venelouis Xavier Pereira quem imprimiu a marca mais forte e mais conhecida do veículo no jornalismo local. Tão distantes estavam os demais proprietários e gestores do O Estado, que antecederam a fase de Venelouis, que sua contribuição poderia se perder na ignorância e no esquecimento. Juntas, estas duas partes fazem O Estado maior e melhor.

O livro divide esta primeira fase da seguinte maneira: primeiro, o fundador, José Martins Rodrigues, em 1936. Depois, Alfeu Faria de Aboim e Walter de Sá Cavalcante (1942). Depois, Antonio Frota gentil (1945), sendo comandado adiante por Cláudio e Fran Martins, e, logo em seguida, por Nelson Otoch e Sérgio Philomeno, para, em 1966, ficar em mãos de Venelouis (até 1996, quando assume seu sucessor e filho Ricardo Palhano).

O autor consegue dar um quadro bem ilustrado da apaixonada imprensa que prevaleceu até os anos 1980, atuando de forma nitidamente partidária. Também merece destaque o resgate de profissionais do jornalismo que passaram pela redação do O Estado. A pesquisa chega a dias recentes e a nomes que ainda estão em plena atividade.

CURTAS

“Venelouis era uma figura complexa, paradoxal, porque ele era temperamental. Então você tem momentos de muita raiva e de fina doçura, mas normalmente ele era irônico e alegre.”

“Eram dignos cavalheiros de disputas infindas que se moviam pelo credo, pela convicção e pela integridade moral. O Estado era PSD, O Povo era UDN. Dignas tribunas defensáveis em todos os excessos que cometeram em nome de sua verdade.”

“Nobre cita o assassinato dos jornalistas João Demétrio e Antonio Drumond, a censura ostensiva praticada durante o Estado Novo (1937-1945) e o exílio forçado de jornalistas perseguidos pela oligarquia Accioly como alguns exemplos de violência.”

“O Café da Imprensa era o ponto de preferência, um lugar agradável localizado na rua Guolherme Rocha a dez metros da rua General Sampaio. Após o fechamento das edições, era para lá que os plantonistas iam.”

“A revista Veja daquela semana relata o acirramento da relação de Venelouis com o comandante do Batalhão de Trânsito – Batran. Venelouis tomou as dores em defesa do seu editor-chefe Augusto César Benevides.”

“…Nem sempre o pobre, o espoliado, o abandonado, aquele a quem se nega a justiça elementar do salário que lhe permita uma vida humana e digna, para si e para a família, se obstinará em esperar sem que a esperança se converta em desespero…”

“Quando, em 1963, assume o governador Virgílio Távora, Themístocles se afasta do jornal. Há uma queda brusca do faturamento da empresa, Virgílio ignora O Estado…”

BONS MOMENTOS

“Que tenha vida longa –, murmura José Martins Rodrigues, folheando o primeiro exemplar recém-saído das oficinas, tinta ainda fresca. O barulho das folhas sendo manuseadas com um misto de avidez e delicadeza de um pai que contempla mais um filho infante. Estava em suas mãos algo que havia sido pensado e decidido por um pequeno núcleo duro assentado no pleno poder. O Estado vinha aliado politicamente ao governo do Ceará de Menezes Pimentel que, com a eclosão da ditadura do Estado Novo (em novembro de 1937) continuou no comando do governo, agora como interventor.”

“Até o fim dos anos 1950, os jornais O Povo e O Estado assumiam, em suas linhas editoriais, posições claramente adversas, como lembra J. Ciro Saraiva. O que era muito natural. Os jornais eram tribunas doutrinárias e funcionavam como trincheiras avançadas dos partidos, O partido sem jornal estava em desvantagem no embate das ideias. O udenista O Povo era dirigido pelos irmãos Ferreira Lopes – Sarasate e João Jaques. O pessedista o Estado era dirigido, em uma de suas mais efervescentes fases, por Walter de Sá Cavalcante e Hermenegildo Sá Cavalcante.”

“A história do jornal O Estado é marcada por grandes embates. O governador Faustino Albuquerque, que fez um governo raquítico, foi massacrado pelo jornal, com justa razão e não somente por ser udenista, mas também por isso. O jornal foi o grande palanque, aplaudiu efusivamente, defendeu, atacou e atuou como cão de guarda, sendo decisivo para a vitória de Raul Barbosa, do PSD, sucessor de Faustino.”

“Ficou o jornal O Estado na oposição e depois veio o Ciro. O Ciro seguia a determinação do Tasso. E o jornal O Estado continuou discriminado. O Ciro quando foi prefeito, também discriminou O Estado. E depois veio o Tasso de novo, depois o Tasso de novo. E o jornal O Estado ficou longos anos sem o anúncio oficial. O jornal O Estado só voltou a ter anúncio oficial do Governo do Estado novamente na gestão de Lúcio Alcântara.”

“Venelouis era que nem irmão pra mim, era uma das pessoas que eu queria bem. Quando ele foi agredido no episódio do sequestro, as primeiras pessoas a chegarem na casa dele foram eu e o Dário Macedo. Mas ele sofreu várias agressões, não foi apenas o sequestro, teve aquele pessoal do Paulo Benevides, que invadiu a casa dele para agredi-lo. Teve um general amigo nosso que o agrediu lá no Náutico Atlético Cearense.”

“Adísia Sá queria registrar no Sindicato dos Jornalistas todos os profissionais que ocupavam funções nas redações. O jornalista Francisco Auto Filho também se associou ao pleito. À época, Auto estava exilado no jornal O Estado, já que não era admitido por nenhuma empresa jornalística em decorrência de sua militância política. Venelouis, que tinha uma enorme admiração por ele, recebeu-o no jornal com contrato de trabalho e salário mensal, desafiando os arautos locais da ditadura militar. No período mais bicudo, Auto Filho chegou a ocupar um cômodo na casa de Fran Erle, no bairro Joaquim Távora, em Fortaleza.”

“Um fato engraçado é que ele conseguia que a convivência das ex-mulheres fosse harmoniosa. A harmonia era tão pública que, certa vez, em uma das inúmeras festas de aniversário do jornal, que adorava fazer, Venelouis chegou com sua namorada atual, em vestido longo, vermelho. Minutos depois, uma exuberante Wanda Palhano adentra o recinto, de vermelho longo. Não bastasse, Marluce Férrer chega à festa, toda bela, trajando um vistoso longo vermelho. Eis que Helder Cordeiro não se conteve: – Venelouis, eu vou lhe dizer uma coisa. Só você mesmo para conseguir juntar as ex-mulheres. E o mais interessante é que conseguiu fardá-las.”

Compartilhar esta publicação:

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp