Jornalismo frágil confunde ouvinte de rádio com número de empregos

Uma empresa privada de consultoria, a LCA, apresentou um trabalho comparando os anos de 2014 e o ano de 2022 en relação ao mercado de trabalho e número de empregos. O estudo mostra que o país perdeu nesse período 2,8 milhões de empregos com carteira assinada. A rádio CBN ao divulgar o estudo engata a informação de que “em compensação”, o mercado teria ganho 6,3 milhões de pessoas que não se declaram desempregadas  e não têm contrato de trabalho, declaram ganhar “por conta própria”, ou seja estão na informalidade (chama-se de bico) ou se caracterizam como “empreendedores”.

No programa CBN Brasil, da rádio CBN do sistema Globo, os jornalistas Alberto Sardenberg e Miriam Leitão fizeram análise desses números durante oito minutos e basicamente conduziram o raciocínio a comparar os dois números, como se houvesse um “saldo positivo”. Está errado. Primeiro porque se espera que o mercado de trabalho formal cresça vegetativamente, para acompanhar o crescimento da população, além da entrada massiva dos jovens na proporção de pelo menos um milhão de novos empregos por ano. Segundo porque informais e empreendedores são estágios precários de vínculo e de remuneração, pois oscilam incontrolavelmente.

A condução jornalística também levou a matéria que tomou quase oito minutos para a conclusão em duas direções: uma, os trabalhadores precisam se qualificar; duas, as pessoas precisam ser apoiadas para se tornarem empreendedores.

Levadas ao extremo essas duas observações praticamente colocam a culpa do problema do desemprego no trabalhador, ou seja ele não é qualificado ou então ele não é suficientemente empreendedor. O fato é que perderam-se 2,8 milhões de empregos de boa qualidade, empregos com carteira assinada. E não foram criados novos postos formais. E nenhum elemento de análise foi acrescido. Uma hipótese, por exemplo: as empresas demitem quem tem carteira assinada e “contratam” informais. 

Quando, em 2010, a demanda por mão-de-obra não encontrava candidato facilmente, em vez de valorizar a situação (e sugerir o aumento dos salários), a imprensa tradicional criou a expressão “apagão de mão-de-obra”.

 

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