O caso do assassinato, ontem (domingo, 10/7), do dirigente petista e guarda municipal Marcelo Arruda por Jorge José Guaranho, policial penal federal e exaltado adepto do presidente Jair Bolsonaro, em Foz do Iguaçu (PR), merece reflexão.
Houve monumental apagão de jornalismo durante quase todo o dia. Falava-se insistentemente em duas mortes, mas poucos procuravam checar o que aconteceu.
Fato: a delegada Iane Cardoso, de Nova Iguaçu, já havia postado, dias antes da tragédia, ofensas ao PT e aos petistas nas redes sociais. Por coincidência, foi da Polícia Civil dessa cidade que saiu a história das “duas mortes”, repetida à exaustão durante quase todo o domingo (10/7) pela grande mídia, blogueiros e até pelo pré-candidato do PDT a presidente da República Ciro Gomes.
A delegada quis insistir na versão de desentendimento entre o bolsonarista e o petista e ousou dizer que os dois já se conheciam. Questionada sobre a fonte dessa informação, ela ficou muito sem jeito diante das câmeras. Que vergonha. Testemunhas reafirmam que Arruda e Garanho não se conheciam e que o último invadiu a festa de aniversário do primeiro. Não fosse a reação de Arruda, que atirou no agressor depois de ferido, poderia ter ocorrido não apenas um homicídio, mas uma chacina no local.
O presidente Jair Bolsonaro fugiu do assunto e lembrou a “facada” que teria sofrido em 2018 (!). Nenhuma palavra de solidariedade à família do morto.
O pré-candidato a presidente da República pelo PDT Ciro Gomes fez pior e divulgou essa nota asquerosa no Twitter:
“É triste, muito triste, a tragédia humana e política que tirou a vida de dois pais de família em Foz do Iguaçu. O ódio político precisa ser contido para evitar que tenhamos uma tragédia de proporções gigantescas”. Sórdido ou cínico? Indagou também no Twitter a jornalista Inês Aparecida. Eu marco as duas alternativas.
O jornalista Erivaldo Carvalho, no blog editado por ele, chegou a cometer a expressão “dois mártires” (!) e atribuía tudo ao exarcerbamento de “ambos os lados” (?).
Houve um assassinato antecedido de invasão da festa de aniversário. O homicida saiu ferido e está vivo. Se houve “dois mártires” no episódio, foram Marcelo Arruda e a verdade.
A GloboNews, quase no final da tarde, começou a esclarecer o assunto e lhe deu a atenção merecida, através da jornalista Natuza Nery. O estrago, no entanto, já era grande.
Muito grave. A imprensa brasileira deu um salto de qualidade no final dos anos 70 e até os 90 e início dos 2000, comparado ao jornalismo que se praticava no Brasil nas décadas de 30, 40, 50 e início dos anos 60. De lá para cá deu outro salto: dessa vez muito para trás.
O procedimento básico – de checar informações, principalmente as prestadas por fontes policiais – foi deletado há algum tempo em certas ocasiões. É tão difícil saber se uma pessoa morreu ou não antes de publicar a notícia? O resultado é o que se viu no domingo: desinformação.
A internet, excelente ferramenta para o aprimoramento da notícia, é utilizada para fazer o antijornalismo. E haja notícias falsas ou deturpadas, mentiras, calúnias, suavizadas pela expressão inglesa fake news. Os sites que se propõem a identificar fake news são os mesmos que as propagam (o caso de Nova Iguaçu é exemplo clamoroso). G1, UOL e outros veiculos da mídia digital só se lembraram de checar todas as informações na tarde de domingo. O episódio ocorreu na noite de sábado.
A tragédia de Foz do Iguaçu é prenúncio de outras mais graves. Que a imprensa se porte com dignidade nessa campanha presidencial que não começou ainda e já deixa a marca da tragédia.