É impressionante como o comportamento dos mais tradicionais veículos de comunicação (rádio, jornal, televisão) está se aproximando do comportamento das redes sociais. As redes sociais não têm princípios, não têm valores, não se submetem a leis nacionais, colocam-se acima de qualquer regulação, não se responsabilizam pelos conteúdos que divulgam e não se preocupam em separar a verdade da mentira, a informação da desinformação, a notícia da opinião, o entretenimento do crime e a realidade do absurdo. A imprensa está se aproximando dessa deformação e abandonando o jornalismo profissional.
Cabe aqui dar um exemplo simples. Nesta quarta e nesta terça-feira, Brasil e China tiveram encontros diplomáticos e negociações diretas entre os dois presidentes resultaram em acordos estratégicos relevantes. No momento em que o mundo vive paralisação de investimentos, redução do comércio e a tarifação unilateral e desproporcional, Brasil e China programam expressivos investimentos em infraestrutura, tecnologia e saúde, entre outros, se propõem a executar projetos de mútuo interesse, como uma ferrovia moderna e estratégica, a imprensa brasileira finge ignorar e efetivamente esconde tudo que foi tratado e concentra-se em explorar uma gafe da primeira dama do Brasil.
Nesta quarta-feira, dois programas da GloboNews, com equipes diferentes e âncoras diferentes, nove analistas, dedicaram juntos 28 minutos debatendo a gafe. Isto poderia ser apenas uma opção incompetente de pauta jornalística, fruto talvez de jornalistas mal formados, mal orientados e acomodados. Entretanto, tudo indica que a imprensa tradicional está afundando em questões irrelevantes, em interesses miúdos, quem sabe até apostando em algum tipo de caos.
As redes sociais e a imprensa tradicional estão divulgando a mentira de que o país, economicamente, está numa crise explosiva e à beira de algum abismo. Na verdade praticamente todos os índices econômicos relevantes do país estão no melhor patamar dos últimos dez anos. E podem melhorar.
Outra mentira da grande tradicional imprensa é que a dívida interna brasileira está caminhando para insolvência. Além do fato de que nenhuma dívida interna torna nenhum país insolvente (não há um único caso na história econômica do mundo moderno, porque em última instância o país pode emitir moeda e pagar a dívida), o caso do Brasil é muito simples: a única ameaça ao descontrole da dívida do Brasil é a taxa de juros que o Banco Central forma autônoma escolhe aplicar. Isso resulta, esta taxa desproporcional de praticamente 15% ao ano, um absurdo, num gasto financeiro anual de 1 trilhão de reais. A imprensa também finge ignorar isto e cobra dos governantes congelamento por seis anos no salário mínimo e o piso da aposentadoria. Uma crueldade com os mais pobres.
A imprensa tem um papel na manutenção dos regimes democráticos. Seu papel é fazer a mediação entre os poderes e a população, organizando o debate, informando os participantes, mostrando opções, indicando caminhos e cobrando ação. Os sinais que estão sendo dados apontam que a imprensa está se demitindo deste seu papel e, adotando modelo de não-jornalismo das redes sociais, consciente ou inconscientemente, empurrando o país para o impasse institucional entre os poderes estabelecidos e para algum tipo de revolta popular.
Não há como conduzir um país da dimensão e da complexidade do Brasil sem a contribuição da imprensa tradicional e sem algum freio nos abusos das redes sociais.