Não se trata de luta política, não se trata de disputa eleitoral, muito menos se enquadra no diagnóstico pobre e falso de polarização. Na verdade o que está acontecendo é uma destruição de referências mínimas da vida civilizada. Traduzindo: as instituições estão perdendo a confiança, as informações estão sendo manipuladas, os poderes estão perdendo a sustentação, até os mercados estão afetados.
O que acontece atualmente, todo dia na imprensa é a exposição crua dessa perigosa realidade e a explicação de como ela evolui rumo a algum tipo de caos.
Na administração pública nenhum dos três poderes está ao abrigo da mentira insistente, das campanhas de descrédito e do seu enfraquecimento na opinião pública, na população. O Poder Executivo não consegue emplacar seu projeto, sua agenda. Teme se expor aos outros dois poderes e cede o tempo todo. O Poder Legislativo faz um nível de pressão política que beira a chantagem, e se desqualifica quando faz leis e se anulou como fiscalizador da qualidade do serviço público. O Poder Judiciário cortejou tanto e por tanto tempo obter simpatias e resultados ilegítimos que perdeu sua força e enfraqueceu a força de coerção da própria lei. Agora adia o máximo que pode toda decisão judicial séria, a sentença.
O mundo dos negócios habituou-se a fraudar o capitalismo, com monopólios, cartéis e manipulação de informações. A concorrência quase não há mais. A lei da oferta e da procura nem mais acontece. Não há quase mercados, só o “mercado”. A análise econômica é enviesada, interessada, beira o lobby. Os economistas vendem opinião e se especializam numa única direção.
A política está sendo comida por dentro, estão desaparecendo os líderes que apontavam caminhos e construíam sonhos e formulavam projetos. Não há discurso consistente. Não há debates substantivos.
Na politica, regra geral é o fim dos partidos. No mundo do trabalho, os sindicatos empobrecem e encolhem. As entidades empresariais também murcharam, se não em termos financeiros, com certeza em termos de poder e influência.
A imprensa é o começo, o meio e o fim deste processo de corrupção dos elementos de coesão social. Os mínimos denominadores comuns estão desaparecendo. Se a verdade foi sempre considerada relativa, a sociedade ainda tinha a ciência e os fatos, uma espécie de respeito ao saber e de reverência a esses mínimos, esses elementos.
A imprensa contaminou-se. E contaminou tudo. Afinal, ela é a grande mediadora entre os poderes, entre os poderes e a sociedade, entre os agentes econômicos e os consumidores. Ela tem exercido precariamente este papel, na informação, na análise e na opinião. Está prestes a perder a legitimidade para cumprir sua função institucional, social e politica.
As redes sociais estão assumindo o comando. E a elas interessa seguir na destruição. Acelerar e completar este processo é seu objetivo.
Seria ótimo se este comentário estivesse errado: ou o processo não existisse, ou, se existe, que não leve ao caos.