A imprensa tradicional brasileira comprou a guerra das elites econômicas (pessoas super ricas e gigantescas e poderosas empresas) e resolveu ultrapassar, se necessário, todo e qualquer limite do bom senso e do profissionalismo jornalístico para encurralar o governo federal e obrigá-lo a fazer os tais “cortes de gastos“.
Os “cortes de gastos” se transformaram numa espécie de remédio para todas as mazelas do país. É estranho que uma imprensa séria proponha que o problema do país seja o déficit primário, no caso brasileiro o pedaço menor do seu déficit (explica-se: o déficit nominal é oito vezes maior que o déficit primário). É inconcebível que o corte de gastos primários seja apontado e defendido como o único e indispensável caminho para o desenvolvimento do país. No caso do Brasil, um país atrasado e injusto, caberia um diagnóstico mais elaborado, menos pueril. Este comportamento radical, quase fanático, da imprensa brasileira tradicional em relação à análise econômica é desproporcional e ridículo, fere qualquer pensamento ou consciência minimamente racional. Nesta cruzada de vida ou morte, a inteligência mais básica e a mínima moderação passam longe, ferem a sensibilidade da audiência minimamente qualificada, com alguma habilidade de compreensão.
Na medida em que esta campanha perpétua e sem trégua, pobre e grosseira se afina perfeitamente com os interesses das pessoas e das empresas mais poderosas, a imprensa se afasta de provar que ainda é capaz de respeitar princípios e valores e demonstrar que respeita a inteligência da sua audiência.
Como explicar a toda a sua audiência que a imprensa declara guerra ao déficit primário enquanto ignora completamente o déficit nominal? Ora, o déficit nominal se aproxima de 1 trilhão de reais enquanto déficit primário nem alcança 100 bilhões de reais. Se a imprensa não explica essa diferença de critérios, ela perde ou se arrisca a perder o respeito da população.
Não há nada de ingênuo nesta campanha pelos “cortes de gastos”. A elite brasileira compreende que obrigando o governo a cortar gastos primários mantém aberta a torneira dos gastos financeiros com juros altos que paga aos títulos da dívida pública interna, com a benção do Banco Central autônomo. E, de quebra, bloqueio qualquer aumento de tributação sobre os ricos.
Estes são os dois interesses em jogo.