O AUTOR
Tim Wu é escritor, advogado e professor da Escola de Direito da Universidade Columbia, em New York, expert em leis de copyright. Ele nasceu nos Estados Unidos, mas cresceu no Canadá, filho de pai chinês e mãe britânica. Escreve regularmente para grandes jornais e revistas norte-americanas. É dirigente de uma fundação voltada para a reforma da mídia. Foi eleito um dos 50 mais influentes líderes em ciência e tecnologia em 2006 pela Scientifc American e um dos 100 mais influentes diplomados em Harvard.
CIRCUNSTÂNCIAS
O livro nasce e se desdobra os fatos relevantes que acontecem em torno dos meios de comunicação mais importantes na história da humanidade: o telefone, o cinema, o rádio, a televisão e a internet. A coleta de dados é precisa e parte da segunda metade do século XIX, quando o telefone ainda é uma ideia de Graham Bell.
A PUBLICAÇÃO
O livro “Impérios da Comunicação – do telefone à internet, da AT&T ao Google” foi publicado no Brasil em 2012, pela editora ZAHAR. O livro tem 432 páginas (as últimas 48 destinadas a índice remissivo e notas). Nos Estados Unidos, ele foi publicado na virada de 2010 para 2011. Não tem prefácio. O próprio autor o introduz.
Este livro será reconhecido rapidamente como um clássico. Sua leitura é obrigatória para jornalistas, publicitários, políticos e sociólogos, assim como para qualquer pessoa minimamente interessada em entender como a sociedade atual foi moldada pela indústria da informação.
Tim Wu descobre na história da indústria da informação um padrão de comportamento, que ele chama de Ciclo. O telefone, o cinema, o rádio e a televisão nasceram e deram os primeiros passos como inovações não voltadas para o lucro, que prometiam a integração das pessoas e a democratização plena da comunicação. Com o passar do tempo, todos eles se tornam lucrativos e tendem à concentração e ao monopólio, sempre sob as vistas e sob a regulação do poder público.
O livro conta a trajetória de todos eles na direção desse Ciclo. Todos os aspectos são abordados: os avanços tecnológicos, as relações com o poder público, a expansão comercial, a luta entre os empresários pelo domínio do mercado, a crescente dimensão política e cultural de todos eles e até as relações entre eles próprios. O Ciclo se confirma e se repete em todos eles, não sem a intervenção dos governos.
Neste momento, a internet está se definindo e muito brevemente saberemos se a confirmação do Ciclo é total também na rede mundial de computadores. O livro também trata desta questão, pois a pesquisa alcança o ano de 2010. Falta pouco para sabermos.
O livro é original na abordagem não apenas do Ciclo, mas ao identificar e detalhar uma a uma todas as fases do próprio Ciclo de cada um dos meios de comunicação, com dados e fatos relevantes e precisos. O texto flui leve, o estilo do texto é atraente, os fatos e os dados levantados adquirem o peso que lhes dá o próprio leitor. Surpreende a quantidade e a qualidade das informações que colocam o poder público no cenário das definições tanto para o telefone, como para o cinema, rádio e televisão.
O LIVRO
A breve história da nova tecnologia, as primeiras empresas e as primeiras abordagens comerciais, as expectativas sociais e culturais da democratização da informação, a reviravolta rumo a concentração, cartéis e monopólios, a participação dos governos, os personagens marcantes, as contradições e os conflitos de todo tipo, todos esses elementos são abordados com objetividade de dados, datas e fatos relativos a cada indústria da informação (telefone, cinema, rádio, televisão).
À medida que os ciclos vão se caracterizando e se repetindo, o leitor vai perdendo qualquer crença numa possível ingenuidade ou aleatoriedade dos grandes desdobramentos dessa indústria tão decisiva, tão estratégica. O contexto político e institucional não deixa margem a dúvida quanto à simbiose entre a grande empresa e a gestão institucional pública, seja nos Estados Unidos de Roosevelt, na Inglaterra de Churchill ou na Alemanha de Hitler.
O meio cultural também faz parte do contexto. O guru liberal Frederick Hayek é chamado a explicar certos aspectos contraditórios do setor, assim como o escritor britânico Aldous Huxley faz comentários incisivos sobre a manipulação da indústria da informação e suas consequências, dentro e fora dos Estados Unidos.
O livro alcança o momento atual e descreve a evolução da internet na perspectiva do Ciclo que caracterizou os demais (cinema, rádio, televisão, telefone) e oferece ao leitor uma visão para que ele mesmo faça um juízo.
INSIGHTS
“Assim como o e-mail já estava por aí desde o fim dos anos 1960, embora só tenha chegado ao público nos anos 1990, alguns tipos de transmissão (de rádio) já vinham ocorrendo desde 1912, talvez até antes disso.
“Revista Scientif American, em 1924: Todas essas casas e comunidades desconectadas serão unidas pelo telegrama e pelo telefone.
“Quanto ao modelo americano de financiamento, o primeiro comitê parlamentar a debater sobre o rádio proibiu a propaganda, alegando que poderia “baixar o padrão” – embora não se tenha explicado como uma menção à carne enlatada pudesse surtir esse efeito.
“O grande mérito do telefone não era funcionar como uma versão aperfeiçoada do telégrafo, ou uma forma eficiente de comércio, mas a primeira tecnologia social.
“Já em sua época, John D. Rockefeller foi pioneiro do modelo “compre ou morra” para construir a Standard Oil.
“O monopolista esclarecido deve fazer bem o que faz de melhor, servindo ao público em íntima cooperação com o Estado.
“Na prática, esse foco levou quatro indústrias básicas a se identificar como “serviço público”: telecomunicações, bancos, energia e transporte.
PRINCIPAIS IDEIAS
A história mostra uma progressão característica das tecnologias de informação: de um simples passatempo à formação de uma indústria; de engenhocas improvisadas a produtos maravilhosos; de canal de acesso livre a meio controlado por um só cartel ou corporação – do sistema aberto para o fechado. Trata-se de uma progressão comum e inevitável, embora essa tendência mal estivesse sugerida na alvorada de qualquer das tecnologias transformadoras do século passado, fosse ela telefonia, rádio, televisão ou cinema.
Quando voltou à Inglaterra, (o escritor Aldous) Huxley (autor de O Admirável Mundo Novo) escreveu em um ensaio para a Harper’s Magazine chamado “The Outlook for American Culture”: “O futuro dos Estados Unidos é o futuro do mundo”. Huxley tinha visto esse futuro e estava um tanto desanimado com ele. “A produção em massa é admirável quando aplicada a objetos materiais”, escreveu, “mas não é tão boa quando aplicada às questões do espírito”. Sete anos depois, essas questões do espírito ocorreriam a outro estudioso da cultura e teórico da informação. “O rádio é o intermediário mais influente e importante entre o movimento espiritual e a nação”, escreveu Joseph Goebbels, de maneira bem astuta, em 1933. “Acima de tudo”, continuava, “é claramente necessário centralizar todas as atividades de rádio”.
“J. P. Morgan era um sócio silencioso, e seu nome aparece muito pouco na história do telefone. Mas o financiamento de seu grupo (o maior banco americano) foi crucial… não podemos saber se Morgan partilhava sentimentos de Vail a respeito dos deveres públicos de uma corporação, mas sem dúvida concordava com a convicção de que o monopólio era o melhor modelo de negócio. Na verdade, como veremos muitas vezes, a mudança de uma fase industrial aberta para um mercado fechado costuma ter início quando os interesses do capital vislumbram o potencial para aumentar imensamente o lucro com o monopólio, ou quando exige mais segurança para seus investimentos … Em 1909, sob a direção de Morgan e usando seu dinheiro… a AT&T agora controlava todas as comunicações instantâneas de longo alcance dos Estados Unidos.
“O Truste (do cinema) era um cartel com a intenção de monopolizar a indústria. Os textos de economia afirmam que a ineficiência do monopólio vem de sua tendência a restringir o fornecimento e aumentar o preço. Mas, no caso do cinema, o objetivo era baratear o produto, portanto, o efeito era a redução de preços – será que isso seria um problema? Sim, e de fato este é um caso em que a maior ameaça do monopólio não é à economia, mas à expressão…Numa indústria da informação, o custo do monopólio não pode ser medido apenas em dólares, mas também nos seus efeitos sobre a economia de ideias e imagens, restrições que podem, em última análise, chegar à censura.
“Mesmo numa cidade governada por católicos, a indústria cinematográfica, cheia de dinheiro, sempre poderia subornar os políticos ou a polícia para exibir seus produtos. Na verdade, os vigilantes católicos foram bem astutos, pois perceberam que numa democracia a censura oficial jamais poderia ser tão eficaz quanto a particular.
“Veja como Mick LaSalle, crítico cinematográfico e autoridade no período pré-Código de Hollywood, descreve esses filmes do início dos anos 1930: “Eles celebram a independência e a iniciativa, seja o protagonista honesto ou desonesto. Preferem o individual ao coletivo, e são profundamente cínicos com todos os poderes estabelecidos, como governo, polícia, Igreja, grandes negócios e o sistema legal. Tendem a ir contra qualquer coisa que se ponha no caminho da liberdade, incluindo a liberdade sexual. Por isso mesmo, aquele que manda alguém fazer alguma coisa em geral é o vilão”.
“Em meados dos anos 1930, já estava claro que a possibilidade de fazer qualquer filme nos EUA dependia do critério de um homem, a ponto de a revista Library afirmar com plausibilidade que Joseph Breen “provavelmente tem mais influência na padronização do pensamento mundial que Mussolini, Hitler ou Stálin”. Mas a indústria cinematográfica, a Igreja Católica e a Casa Branca apoiavam o sistema, proclamando uma nova era para o cinema americano. Eleanor Roosevelt enalteceu o novo Código num pronunciamento no rádio: “Eu estou muito feliz que a indústria cinematográfica tenha nomeado um censor saído de suas próprias fileiras”.
“Em 1956, a apresentação de Elvis Presley no The Ed Sullivan Show atraiu inacreditáveis 83% dos lares americanos que tinham aparelho de TV. Em 1955, a transmissão do musical Cinderella atraiu 107 milhões de telespectadores, quase 60% da população. Talvez as redes de TV no mundo todo foram o sistema de informação mais poderoso e centralizado da história da humanidade.
“Nós já vimos isso antes: o momento em que uma atividade de aficionados, com interesse limitado, torna-se uma mania vigente. Foi o que aconteceu com o telefone em 1894, com a transmissão de rádio em 1920 e com a televisão a cabo nos anos 1970. Mas a revolução do computador foi comprovadamente mais radical que quaisquer outros avanços, por ter apresentando um desafio ideológico claro ao status quo da economia da informação.
“No início dos anos 2010, ficou claro que a batalha pelo futuro da internet era apenas a mais recente reprodução da perene luta ideológica para a qual toda indústria de informação acaba sendo arrastada. É o velho conflito entre o grande e o pequeno, entre os conceitos de sistema aberto e fechado, entre as forças de ordem centralizadora e as da variedade dispersa… Esta é a própria essência do Ciclo.