OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO PROMETERAM DEMOCRATIZAR, MAS O QUE FIZERAM FOI CONCENTRAR. AGORA OS MAIS MODERNOS AMEAÇAM A DEMOCRACIA

As redes sociais têm poder para fortalecer ou destruir as democracias …

Enquanto isso, na natureza, entre pedras e mato seco, a cobra venenosa aproxima-se suavemente de sua possível vítima, um pássaro, digamos, e como que hipnotiza-o para dar o golpe mortal. O pássaro não se move, percebe e sente a ameaça, mas não age, não reage. Não tem coragem para enfrentar, nem iniciativa para fugir. E sua vida acaba.

Respeitadas as diferenças e guardadas as devidas proporções, esta cena tem incrível semelhança com o que pode acontecer com a maior de todas as vítimas, a sociedade civilizada. A serpente venenosa, sutil e focada são os agentes que avançam sorrateiramente para golpear e matar as democracias.

Sempre que há uma grande mudança tecnológica, a história mostra, as sociedades sofrem grandes transformações, ora para o bem, ora para o mal. Foi assim quando Guttenberg introduziu a impressora, quando Janes What inventou a máquina a vapor, ou quando surgiram telefone, o avião, o rádio, a televisão, a internet… A sociedade sempre saúda os avanços e festeja os inovadores, assim como premia de mil maneiras aqueles que aproveitam as possibilidades que se abrem.

As novidades na comunicação, como o rádio nos anos 1920, como a televisão nos anos 1950, ou como a internet nos anos  90 e agora com as redes sociais nestas últimas duas décadas, todos esses saltos provocaram transformações políticas, no sentido de que alteraram radicalmente os eixos de poder local, regional, nacional ou mundial.

Nenhuma dessas mudanças tem um potencial tão gigantesco quanto a conjunção da internet com as redes sociais.

Cada uma dessas inovações de comunicação surgiu com a promessa de que todas as frações da sociedade organizada teriam acesso ao seu próprio veículo de comunicação. Assim, as entidades empresariais, sindicais, religiosas ou de qualquer outra natureza, inclusive políticas, esportivas ou culturais poderiam em breve ter a sua própria emissora de rádio. Depois ocorreu o mesmo com a televisão. Mas as promessas nunca se cumpriram. O poder de comunicação sempre se concentra.

Mas a promessa mais forte, mais nítida e e mais factível sempre foi a da democratização que viria inevitavelmente e radicalmente com as redes sociais do âmbito da internet. Cada instituição, cada cidadão teria o seu próprio veículo de comunicação, estaria conectado em rede com toda a humanidade, sendo que nenhum óbice de natureza tecnológica ou financeira seria obstáculo a esse objetivo. Em outras palavras, a nova tecnologia cumpriria finalmente a promessa que nenhum dos outros veículos cumpriu, e havia para isso uma razão sólida: o sistema democrático interessava a todos e era uma conquista da qual não se poderia sequer pensar em recuar.

Por todas essas razões, o mundo inteiro, todos os governos, todas as culturas, todos os continentes e nações abriram-se a facilitar e a estimular o uso da internet articulada com as redes sociais. Isto se faria sem limite, com liberdade absoluta, e os maus usos dessa novidade não eram sequer cogitados, tamanho era o interesse público legítimo e absoluto.

Não demoraram muitos anos para que toda essa estrutura virtuosa fosse envenenada por uma distorção do capitalismo, a mais absoluta distorção de um sistema que normalmente gera prosperidade: a falta de concorrência, o monopólio.

Sem o freio da concorrência, sem suas virtudes e seus méritos, o capitalismo não faz sentido, termina por transformar-se numa máquina de destruição, de corrupção, com potencial para envenenar toda a sociedade.

Pois bem, o sistema democrático que suportou a prosperidade gigantesca dos últimos dois séculos e meio, proporcionada pelo seu ‘casamento’ com o capitalismo (com seus defeitos, limites e injustiças) está agora não apenas frustrado. Está ameaçado.

O capitalismo cria monstros incontroláveis quando seus setores estratégicos se agigantam de forma descontrolada pela falta de um elemento simples, a simples concorrência.

A manipulação das massas agora pode ser feita por sistemas que individualizam a mensagem. É que para produzir a mensagem individualizada podem usar toda informação exata, ampla e profunda que acumularam sobre cada cidadão. É tamanho o poder que tal possibilidade oferece, que já chegamos próximos ao ponto do “não retorno“.

Por sorte, a democracia pode acordar. E voar…porque ela não é um pássaro.

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