O AUTOR
Nascido em 1950, em Niterói, Rio de Janeiro, Cezar Motta é jornalista formado pela Universidade Federal Fluminense. Começou a trabalhar em 1973, na Rádio Jornal do Brasil. De 1981 a 1987, foi do grupo O Globo, passou depois pela revista Veja. Cobriu a campanha presidencial de 1989 para o Correio Brasiliense e depois passou num concurso para o Senado.
A PUBLICAÇÃO
O livro ‘Até a Última Página – uma história do Jornal do Brasil’, de autoria de Cezar Motta foi lançado em 2017, pela editora Objetiva, com 564 páginas, ilustrado com 22 fotografias. Prefácio da escritora Ana Maria Machado.
CIRCUNSTÂNCIAS
Até abril de 2001, o Jornal do Brasil (ou apenas JB), impresso, considerado um dos melhores jornais brasileiros de todos os tempos, vivera por 122 anos. Nessa ocasião, a tradicional família proprietária arrendou para um empresário (Nelson Tanure), por 60 anos, os direitos de uso da marca. A empresa Jornal do Brasil quebrou. Essa trajetória, que começa em abril de 1891, é marcada nos anos 1950, a metade do caminho, por uma reforma que fez do JB, por mais quarenta anos, o jornal onde todo jornalista sonhava trabalhar, modelo para quase todos os outros. Um jornal de rara beleza gráfica, conteúdo editorial de qualidade, prestígio comercial e força política.
A IMPORTÂNCIA DO LIVRO
“Até a Última Página”, de Cezar Motta, é uma enorme reportagem, um imenso esforço de pesquisa e um documento histórico que mostra com todas as cores o leque de dificuldades, acertos e erros de um jornal que, simultaneamente instituição e empresa, lutava para equilibrar-se nos dois campos. Mas, o Brasil não é um país que facilita essa luta. Crises econômicas, golpes políticos, concorrência desproporcional, fragilidades administrativas e, por último, mas não menos importantes, os decisivos erros estratégicos dos donos, toda a montanha russa da realidade brasileira aparece de alguma forma no livro.
O LIVRO
O jornalista Cesar Motta divide toda a história do Jornal do Brasil em seis grandes partes. Na primeira parte, breve e direta, ele relata os primeiros sessenta anos do jornal. Segue a segunda parte com os passos decisivos da montagem do ‘jornal dos sonhos’, uma reforma gráfica e editorial que envolveu os melhores nomes da imprensa brasileira – são os anos 1950. Depois, seguem as partes terceira, quarta e quinta, quando o autor relata os fatos da política e da economia do Brasil, vistos da perspectiva das páginas e dos profissionais do JB, para cada uma das décadas de 1960, 1970 e 1980. A disputa direta de Manuel Francisco do Nascimento Brito (do JB) com Roberto Marinho (do grupo O Globo), o endividamento e as duas máxidesvalorizações do dólar, o erro do investimento na construção de um suntuosa sede e na implantação da Pisa (uma fábrica de Papel), sem falar no tempo e atenção perdidos com a tentativa de ter uma televisão própria, são os eventos relatados que tornam a leitura ainda mais interessante, pois a intimidade dos jornais nunca sai nas suas páginas, e costumam permanecer ao alcance de uns poucos bem informados por décadas. O autor valoriza bastante os pontos de vista dos próprios jornalistas envolvidos, isso dá vida e variedade ao livro.
INSIGHTS
“Amílcar de Castro aplicou ao Jornal do Brasil a ideia que norteava sua escultura: cada parte da chapa de ferro (ou da página) deveria ter o mesmo peso em cima, embaixo, à direita e à esquerda. O desenho da página e o seu esmero estético estavam a serviço da leitura.”
“Jornal é preto no branco e se lê da esquerda para a direita e de cima para baixo.”
“O Jornal do Brasil ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo de 1964 pela cobertura do golpe militar em todo o país.”
“Hoje começa uma fase diferente do jornalismo. A TV Tupi, já sabemos o que é, mas a TV Globo, ainda não. O doutor Roberto Marinho é um grande jornalista, vem com apoio do grupo Time/Life e vem para conquistar o mercado. Começamos hoje de fato a era da televisão no Brasil…”
“Elio Gaspari: Vamos estabelecer uma premissa para essa conversa, general. Eu não sou um imbecil. De acordo?
“A Globo alegava que Chacrinha havia sido demitido “por exibir entrevista com um efeminado em horário nobre”, o que contrariava as normas estabelecidas por Boni… o Jornal do Brasil aproveitou a crise para fazer jornalismo.
IDEIAS CENTRAIS
“Em 1917, o Jornal do Brasil caprichou ainda mais na cobertura da guerra. Chegou a publicar cinco edições sobre a escalada e o final do conflito. Apesar da aparente solidez empresarial, do equipamento gráfico moderno, do vistoso faturamento com anúncios classificados e do belo edifício na área comercial mais nobre do Rio de Janeiro, o Jornal do Brasil estava praticamente quebrado ao fim da Primeira Guerra Mundial. As dívidas se haviam acumulado. Venceram os prazos de empréstimos bancários e de resgate das debêntures. O maior dos credores, lembramos, era Ernesto Pereira Carneiro.Sua Companhia Comércio e Navegação era uma das maiores do país, tinha salinas no Nordeste, um moinho em Niterói…”
“A Rádio Globo saíra na frente. Roberto Marinho encaminhara em 9 de janeiro de 1951 o primeiro pedido de concessão de uma emissora de televisão ao governo, que foi assinado dois meses depois. Antes que a Globo instalasse a nova emissora, no entanto, Getúlio voltou atrás e revogou a concessão para março de 1953, o que lhe valeria a inimizade irrestrita de Roberto Marinho. Somente em 1957 o dono de O Globo conseguiria a concessão definitiva, que seria renovada em 1962. De todo modo, a TV Globo entraria no ar apenas em 1965…Em julho de 1957 o JB começou a protestar…”
“Desde a Revolução Cubana e a renúncia de Janio Quados, em agosto de 1961, o Brasil passara a viver uma espécie de guerra fria interna, intensa e sufocante. A crise econômica se agravara depois da construção de Brasília e havia um choque permanente entre uma direita que desejava tirar o presidente João Goulart do governo e uma esquerda mobilizada em torno de uma aliança do Partido Comunista Brasileiro (PCB) com a ala esquerda do PTB (Partido Trabalhista Brasil eiro), o partido majoritário.”
“O título e o formato do Caderno B são copiados até hoje em todo o país. Visto à distância, o título parece óbvio diante das iniciais JB. Mas há versões que atribuem o nome do pioneiro caderno de cultura do Jornal do Brasil ao chefe da gráfica, por mero acidente de trabalho. O B não foi inovador apenas pelo nome, mas pelo estilo, com reportagens, coluna social, crítica de cinema, teatro e música, comportamento, moda. Foi idealizado por Reynaldo Jardim, estimulado por Janio de Freitas e desenhado por Amílcar de Castro.”
“O Jornal do Brasil não deixava dúvidas em relação ao lado em que se colocava, pelas manchetes, chamadas de primeira página e editoriais: considerava o golpe bem-vindo. Além da denúncia da invasão da Rádio JB pelos fuzileiros no dia 1 de abril o JB publicou na primeira página matérias que mostravam a tomada de controle do país pelas tropas do golpe. JB não levou em consideração que o presidente da República ainda se encontrava em território nacional nem a possibilidade de uma guerra civil.”
“Os comandantes da redação, porém, tornaram-se excessivamente realistas e inclinaram o jornal para o malufismo. A turma da sucursal de Brasília aumentava o tom das queixas, de que muitas reportagens inconvenientes para Maluf não eram publicadas. José Antonio do Nascimento Brito hoje desafia: “Quero que algueem me mostre um só sinal nas edições do JB daquele período que indiquem apoio a Maluf. Isso não existiu, nem mesmo nos editoriais. Mas a irmã, Maria Regina, reconhece que foi um mau momento do JB.”
“No começo de julho de 1992, a proximidade do Jornal do Brasil com Fernando Collor e seu staff levou à publicação de uma reportagem que comprometeu gravemente a credibilidade do jornal (Operação Uruguai). Era um momento em que até O Globo e a TV Globo já estavam empenhados na campanha pelo impeachment. A CPI do PC Farias fora instalada no começo do ano, depois das denúncias de Pedro Collor de que o tesoureiro de campanha do presidente controlava um esquema de propinas.”
(texto originalmente postado no Segunda Opinião)