
O AUTOR
Carlos Maranhão nasceu em Curitiba, mas vive em São Paulo desde 1972. Fez quase toda sua carreira profissional na Editora Abril, como repórter, editor, diretor de redação e diretor editorial das Vejinhas. Trabalhou nas revistas Veja São Paulo – ficou à frente dela 23 anos –, Veja Rio, Placar, Playbloy e Veja. Foi coordenador do Curso Abril de Jornalismo e autor da primeira edição do Manual de Estilo da editora (Nova Fronteira, 1990). Escreveu ‘Maldição e glória: A vida e o mundo do escritor Marcos Rey (Companhia das Letras, 2004), conforme a orelha do livro.

CIRCUNSTÂNCIAS
Carlos Maranhão foi convidado pelo próprio Roberto Civita para fazer a quatro mãos um livro de suas memórias, projeto que ele mantinha por insistência da filha, apesar da falta de tempo. Maranhão teve com Civita 37 sessões de conversa e amplo acesso a seus arquivos, anotações e ao museu da Abril, além de ter entrevistado familiares, colaboradores, amigos, ex-colaboradores e ex-amigos. O trabalho conjunto durou oito meses, de junho de 2012 a fevereiro de 2013. Foi interrompido com a morte de Roberto 104 dias após uma complicação numa cirurgia. Três anos depois, Maranhão concluiu sua ampla reportagem histórica e biográfica.

A PUBLICAÇÃO
O nome do livro é “Roberto Civita – O Dono Da Banca – A Vida E As Ideias Do Editor Da Veja E Da Abril”. O autor é o jornalista Carlos Maranhão. O livro tem 534 páginas e é ilustrado com mais de sessenta fotografias.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO
O jornalista Carlos Maranhão parece ter preferido fazer muito mais um relato empresarial do que um relato sobre jornalismo. Roberto Civita aparece ao longo de toda a sua trajetória como um empreendedor, um gestor de negócios no ramo gráfico e editorial, um líder de uma grande organização. O autor consegue tratar de delicados momentos e eventos do jornalismo e das relações da Abril com o poder, mas foca o perfil de Roberto Civita como alguém que aceitou e teria honrado o compromisso com os profissionais do jornalismo de não interferir na redação. Segundo o livro, Roberto Civita entendia que não podia misturar a Igreja (a redação) com o Estado (a publicidade, a empresa).
Do ponto de vista da gestão, o livro aborda e cobre, de maneira mais do que suficiente, os bons e maus momentos da empresa e de seus produtos gráfico-editoriais. Carlos Maranhão não faz concessões indevidas ao biografado e produz uma obra importante para executivos e empresários que queiram pesquisar e entender as possibilidades e limites de uma grande e importantíssima empresa de comunicação.
A Abril foi inovadora nos fascículos, nas grandes coleções de livros, nas assinaturas, tentou empreender em televisão e teve indiscutível sucesso no jornalismo (com os grandes momentos da revista Realidade, por exemplo, e com a liderança de outras como Veja, Exame e Playboy, projetos que o biografado conduziu pessoalmente).
De um modo geral, o livro não se alonga nem se aprofunda nas relações com o poder e com os governantes. Fala muito pouco do relacionamento com os generais presidentes e quase nada do poderosíssimo Golbery do Couto e Silva. E não deixa tão bem na foto o jornalista Mino Carta, apesar da elegância do texto.

O LIVRO
O jornalista Carlos Maranhão toma a árvore que é a marca da Editora Abril e usa-a para nomear as quatro partes em que divide o livro: a árvore germinada, em que relata a trajetória dos pioneiros Victor e seu irmão César, abrangendo o período que vai de fevereiro de 1950 a outubro de 1962; a árvore frutificada, que insere o filho de Victor, Roberto, nos negócios, inclusive assumindo o comando após a morte do pai, período que vai de maio de 1965 até fevereiro de 2013, quando se hospitaliza e não sai com vida do hospital; e a árvore desfolhada I e II, ambas cobrindo, na abertura e no fim do livro, os últimos atos da vida do ‘publisher’.
Essas quatro partes estão divididas em pequenos blocos de texto abertos por 46 datas marcantes, o roteiro da vida pessoal e empresarial de Roberto Civita e da empresa que foi, por algum tempo, a maior empresa editorial e gráfica da América Latina, com mais de 13 mil colaboradores diretos, editando com inegável sucesso dezenas de revistas criadas aqui ou em associação com editores de diversas partes do mundo.

INSIGHTS
Costumo dizer, meio brincando, meio a sério, que há mais comunistas na USP do que na China inteira.
Temos que desaprender tudo e reaprender novamente.
Você está sentado sobre um bloco de gelo que vai derreter, disse o banqueiro. “Eu sei, mas é fascinante”, afirmou Roberto.
A Abril é uma empresa de ‘brains’, não uma fábrica.
Em 2001, a Abril tinha perto de 13 mil funcionários. Em 2006, restavam cerca de 5.400. Menos da metade.
Não havia uma terceira alternativa: ou abria o capital ou encontrava um sócio disposto a comprar parte da empresa.
No dia 4 de maio de 2006, a Abril anunciou oficialmente que a Naspers, maior grupo sul-africano de mídia, passava a a ser sua sócia. Ela comprou por 422 milhões de dólares 30% do capital total e 30% do capital votante, limite do legalmente permitido para estrangeiros.
O que te dá liberdade é ganhar dinheiro e não dever para ninguém.
Pelo menos duas vezes a folha (de pessoal) foi paga (com cheque) a descoberto.
Menos de dois anos após a morte de Roberto, eles venderiam a Abril Educação por 1,3 bilhão de reais.

PRINCIPAIS IDEIAS (TAKEAWAYS)
Mais do que os temas políticos, os assuntos de comportamento é que causaram dores de cabeça para a editora. “Como Dom Quixote, nós atacamos os moinhos de vento”, diria Roberto. Os moinhos eram os tabus: sexo, aborto, divórcio, religião. Ninguém falava disso. Não por causa da censura, mas como resultado da moralidade vigente e de cultura hipócrita que existia no Brasil. Dizia-se: isso não se fala, não se publica. Decidimos falar e publicar. ‘Realidade’ não foi apenas contestatória, atrevida e corajosa. Publicou capas com Fidel Castro, Che Guevara, Luís Carlos Prestes e o líder estudantil Luís Travassos, é verdade, mas nenhuma delas causou problemas ou levou as edições a serem apreendidas.
A revista seria o resultado da conjugação de muitos talentos e energia. Eram talentos diferentes, com visões do mundo diferentes. Havia uma preponderância da esquerda, disfarçada. E também militância clandestina. Eu não percebi. Só me dei conta mais tarde das armadilhas. Eu não tinha sensibilidade para ver contrabando nas matérias. Eles me driblavam.
A campanha foi orçada em um milhão de cruzeiros novos, o equivalente em 2016 a 1,9 milhão de dólares, valor até então jamais investido em publicidade por uma empresa de comunicação no Brasil. No dia 8 de setembro (de 1968), um domingo, foram publicados anúncios de página inteira nos jornais de todas as capitais brasileiras, de Manaus a Porto Alegre. “O mundo está explodindo à sua frente e você não sabe por quê” era o slogan. Às 22h10 daquele dia, entraria no ar, nas principais emissoras de televisão do país, um comercial gravado em forma de documentário (12 minutos) para anunciar a chegada às bancas da revista (Veja) na manhã seguinte…nas salas de cinema outro documentário.
De FHC: “Almocei aqui no Alvorada com Roberto Civita. Longa conversa. No fundo, o que ele quer é que se deem mais canais, não entendo muito bem que tipo de canal, é a cabo, parece, para ele competir com o Roberto Marinho, que, segundo ele, está dominando tudo, e é preciso que haja aí maior competição. Foi esse o objetivo principal da conversa comigo. Mas ele falou também de política, da disposição de me ajudar, é favorável à reeleição. Fui discreto na matéria, mas, quando for a hora apropriada, ele vai fazer vários números sobre como essa questão é resolvida no mundo todo”.
Volta e meia, irritava-se ao ler que certas reportagens, a seu ver, contemplavam os pontos de vista do Grupo Globo na questão da televisão por assinatura, setor em que a Abril se aventurava, com suas próprias posições sendo relegadas ao que considerava um segundo plano. Ele sabia que Mário Sergio Conti estabelecera boas relações pessoais com o presidente da empresa, Roberto Marinho.
O ideal é conseguir manter um equilíbrio permanente entre a excelência e a integridade do conteúdo produzido e a saúde financeira da empresa. Estou convicto de que, além de contribuir para o desenvolvimento da sociedade em que vivemos, o jornalismo de qualidade, independente e confiável, pode, às vezes, até ganhar algum dinheiro.
A situação da Abril, naquele momento, voltava a se complicar. Como se temia, a publicidade começou a cair 10% ao ano, a partir de 2011, de forma cumulativa. Ao contrário do que Roberto supunha – ou melhor, desejava – ela não migrou para seus sites da internet. Os anos de 2011 e 2012 foram muito difíceis, mas isso não aconteceu só aqui dentro. O problema aconteceu no mundo inteiro.
As reuniões tiveram momentos tensos em 2006. Quase sempre em função da cobertura do mensalão. Eurípedes insistia que a revista tinha que se referir aos envolvidos como membros de uma quadrilha e ser enfática nos artigos. Roberto defendia uma linguagem mais moderada, sem deixar de lado a indignação. Afirmou muitas vezes que a revista exagerava no tom.