Uma discussão se abriu na imprensa norte-americana: Elon Musk é qualificado para comandar uma rede mundial de comunicação como o Twitter? Pode ser inusitada a questão, sobretudo porque tal interrogação não foi levantada para empreendedores de outras redes mais robustas, como o Facebook, por exemplo, mas o debate se impõe. Agora se sabe que danos as redes digitais podem causar à democracia, e, portanto, a toda a sociedade. Depois de Donald Trump presidente e do ataque ao Capitólio, os riscos estão visíveis, escandalosamente expostos, clamando por enfrentamento. Além de serem forças muito poderosas, além de estarem ainda fora do alcance de regulações mais severas, as empresas do setor não se sentem comprometidas com princípios e valores, alcançaram o sucesso muito fácil e rapidamente, e abusam da liberdade ainda sem limites. Além disso, Elon Musk só mostra fragilidades inaceitáveis para ocupar função tão delicada.
No Brasil, as empresas que controlam os mais poderosos meios de comunicação social (Globo, Folha, Estadão, por exemplo) ainda são controladas por familiares dos fundadores e seguem uma linha editorial tradicional. Cheia de imperfeições, claro, mas até previsíveis e aceitáveis, porque não confrontam aberta e diretamente a democracia.
A Folha era até recentemente uma empresa exclusivamente de comunicação. Agora é também um banco. Será justo afirmar que há um conflito de interesses entre dois negócios tão diferentes? Podem um banco e um jornal ter a mesma liderança, o mesmo comando?
Nas democracias, vale o que está escrito na lei. E nenhuma lei proíbe essa conjunção de negócios. Bancos podem ser objetivos e reduzir a dimensão das questões éticas. Um jornal, não. Princípios e valores de um e de outro não costumam ter nada em comum, e é provável que sejam conflitantes.
O jornalista Henrique Mariante, Ombudsman da Folha, trouxe na sua coluna semanal, mais uma vez, uma série de estranhas escolhas editoriais do jornal que mais se harmonizam com as conveniências do mercado financeiro do que com as boas práticas jornalísticas. Referiam-se, entre outras coisas, a como o jornal tratou dois presidentes eleitos mas ainda não empossados (Bolsonaro em 2018, Lula agora). A simpatia com um, a antipatia com o outro são evidentes.
A revista Veja também tem conexão com um banco. O mercado considera que um banco a controla. E o Estadão teria sido socorrido financeiramente mais de uma vez em suas crises de liquidez.
A discussão cabe nos EUA e aqui também.