Reinaldo Azevedo, o último liberal? Por PAULO VERLAINE

O jornalista Reinaldo Azevedo, 60 anos, direitista liberal, católico (não tradicionalista), paulista de Dois Córregos, é hoje na grande mídia a voz mais incômoda ao governo Bolsonaro.

Comentarista da Rede BandNews de Rádio FM (apresenta o programa O É da Coisa, segunda a sexta, 18 h) e articulista da Folha de S. Paulo, Azevedo também é o único nome destacado, nos grandes veículos de comunicação, a adotar posição crítica em relação aos Estados Unidos, União Européia, Reino Unido e OTAN na guerra Rússia x Ucrânia.

Crítico do presidente russo Vladimir Putin, Azevedo é contrário à invasão da Ucrânia por tropas russas. O jornalista, no entanto, responsabiliza a OTAN pelo conflito, o mais grave depois da Segunda Guerra Mundial, porque, pela primeira vez, envolve diretamente a Rússia em um guerra externa na Europa, maior cenário  e origem de duas hecatombes bélicas (primeira e segunda guerras mundiais).

Azevedo foi, até 2016, acusador ferrenho do Partido dos Trabalhadores (PT). Reivindica para si a autoria do termo “petralha”, o que o torna ainda hoje nome não palatável em alguns setores petistas e esquerdistas. Considerou, na época, legítimo o impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Nos últimos dias passou a afirmar que Dilma não cometeu crime de responsabilidade. (Não foi impeachment, foi golpe). É autor do livro “No País dos Petralhas”.

Por que essa transformação? É bom lembrar que Reinaldo Azevedo não aderiu ao PT, continua atacando a esquerda e segue defensor da economia neoliberal. Porém, mostra-se hoje mais ou menos simpático à candidatura de Lula à Presidência da República, talvez por falta de opção. Em tempo: Reinaldo desde sempre afirmou que Lula foi condenado sem provas.

Apesar do apoio ao golpe de 2016, não podemos chamá-lo de oportunista. Azevedo foi um dos primeiros a condenar, com veemência, as decisões arbitrárias do então juiz e ex-ministro Sérgio Moro, o Torquemada da Operação Lava-Jato, hoje um nome completamente desacreditado e  desmoralizado no cenário político nacional.
“Quem te viu, quem te vê”: Moro em 2017 e 2018 era o super-herói da classe média moralista (sem moral) e até de figuras (poucas) que se dizem de esquerda, ou se declaravam esquerdistas, tais como o senador Randolfe Rodrigues e a ex-senadora e ex-candidata a presidente Marina Silva, ambos do partido Rede da Sustentabilidade. Importante: as duras críticas de Azevedo a Moro foram feitas antes das estarrecedoras revelações do portal The Intercept Brasil.

Polêmico, vaidoso, bem-humorado, muitas vezes cáustico, Reinaldo Azevedo merece atenção nesses tempos em que a grande mídia atingiu o máximo de desgaste perante a opinião pública. Uma voz destoante da mesmice sempre é bem-vinda em época de sabujismo, “fake news”  e dos terrenos imprevistos e minados das redes sociais. Ao ver tantos neolliberais pregarem a volta da ditadura militar, eu defino Reinaldo Azevedo como um neoliberal que leva a sério a palavra liberal. Faz lembrar liberais burgueses do passado histórico recente: Sobral Pinto, Afonso Arinos, Adauto Lúcio Cardoso, Teotônio Vilela, entre outros. Seria Reinaldo Azevedo um dos últimos liberais (no sentido institucional da palavra)?

 

PAULO VERLAINE, jornalista e escritor, assume hoje como Editor do Midia Crítica.

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