A imprensa tradicional não está conseguindo traduzir para sua audiência o que está acontecendo com o país. O jornalismo consegue ver e informar sobre uma árvore, mas não consegue observar e informar sobre a floresta. E as notícias brotam sem qualquer riqueza de contexto e circunstâncias, sem uma visão crítica e de conjunto, faltam números e comparações minimamente inteligentes e reveladoras, com séries históricas e uma análise mais aberta e mais profunda.
Na economia, tudo começa e termina no corte de gastos ou no teto de gastos. Problemas como desemprego, desigualdade e desindustrialização só aparecem no noticiário quando sai alguma estatística oficial, ou seja, uma por mês, quando muito. E desaparecem no dia seguinte, sem uma análise a partir de pontos de vista diversos.
Na questão da saúde, em plena pandemia, o noticiário termina se concentrando na estatística de mortos, novos casos e internações. Ninguém aponta o caos que está se formando e que até parece apoiado por autoridades.
Nas eleições, o debate ficou restrito a pesquisas de intenção de voto. Análise política, só depois, e para fixar as teses já previamente definidas — Bolsonaro perdeu, Lula perdeu, o centro ganhou.
O círculo da notícia, análise, opinião, debate e formação e mobilização da opinião pública cada vez mais se fecha na imprensa tradicional, que parece presa a paixões políticas, preferências partidárias, modelos econômicos e interesses localizados.
Os grandes jornais Folha, Estadão e Globo, seculares, têm plenas condições de fazer muito mais e muito melhor. Antes que seja tarde.