A tradicional imprensa brasileira criou, espalhou e consolidou uma prática jornalística: diante de qualquer violência ou crime fechar a notícia com um sonoro “até agora ninguém foi preso”.
Assim sinaliza a pobreza da abordagem profissional, deseduca a população, simplifica o que não é simples, empobrece o ordenamento policial e ignora o processo judicial. “E até agora ninguém foi preso” é desinformação do cidadão e manipulação da sociedade inteira, além de fuga evidente de qualquer possibilidade de debate minimamente sério e profundo sobre violência e criminalidade.
A imprensa nunca explicou ou explica continuamente que antes da prisão, há que investigar, denunciar, processar, julgar e condenar. Cada com sua complexidade, seus prazos e procedimentos…assim como não explica o papel de cada uma das diversas instituições envolvidas, nem os direitos de cada pessoa…nem quais são as leis aplicáveis…nem os princípios constitucionais conexos…
Nos dias que correm, sobretudo nas últimas semanas, todos os programas de rádio, televisão e internet ficam ‘respondendo’ a pergunta: Bolsonaro vai ser preso? Quando? Por que ainda não foi?
É a consequência natural de um jornalismo pobre e incapaz de bem informar e formar a opinião pública. É notícia sem substância e sem contexto, é sensacionalismo, é parcial e, sobretudo, infantilizador da audiência e de toda a população.
Mas, o problema não é só falta de profissionalismo e de qualidade das equipes dos meios de comunicação, seja no palco, seja nos bastidores. A verdade aponta para uma prática consciente e continuada de reduzir a zero a chance do Brasil e dos brasileiros se conhecerem e conhecerem seus problemas e suas oportunidades.
A prática agora chega ao Parlamento e a prova disso é que um polêmico e frágil projeto de lei foi aprovado por inanidade: a proibição da “saidinha”. Nem uma só palavra sobre o infernal sistema presidiário, nem sobre a fragilidade técnica e investigativa das polícias, nem sobre a suspeita morosidade do poder judiciário…
Eis uma das verdadeiras origens da crise de segurança pública.